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Ontem completou um ano da ainda obscura “Operação Xeque-Mate”, que libertou do cativeiro das Farc a ex-candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt e mais 14 reféns. Em entrevista à radio Caracol, de Bogotá, Ingrid disse ter se retirado da vida pública para escrever um livro sobre sua experiência com a guerrilha na selva. O relato será publicado no ano que vem.

mais uma lista

Tolstoi por ele mesmo: o número 1

meta-Tolstoi: suposto número 1 da literatura

A Newsweek saiu com uma lista dos 100 melhores livros da história da humanidade – da Bíblia a Marx, de Homero à Virginia Woolf e Gabriel García Marquez. Ousado, para dizer o mínimo. Na verdade, trata-se de uma “meta-lista”, explica o site, uma compilação eclética de 10 grandes seleções feitas. Juntaram rankings mais, digamos, tradicionais, como o do St. John’s College, com referências da deliciosa cultura de massa – “Oprah’s Book Club” e os “100 bestsellers, segundo Wikipedia”. Regra do jogo: só entram livros em inglês ou já traduzidos para a língua de Shakespeare.

O resultado é estranho. O melhor livro já escrito pelo homem seria Guerra e Paz, de Tolstoi, seguido por 1984, de Orwell, e Ulysses, de Joyce. Apesar de altamente discutível, o começo da lista não é a maior encrenca. Segundo a Newsweek, O Ursinho Poof estaria 10 pontos à frente de Madame Bovary, de Flaubert, e pelo menos 13 de qualquer obra de Shakespeare. Logo atrás da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, viria O Senhor dos Anéis.

Prevendo a iminente rajada a ser lançada por intelectuais ultrajados, a revista se antecipa:

Some academics, teachers, serious-minded students of literature and intellectual poseurs will, of course, scoff at the idea, calling it preposterous and devoid of any intellectual merit-usually just before they suggest other books that they think should, of course, be included.

(…) Lists – dating back to, say, the Ten Commandments – have an undeniable appeal. And they often serve a useful purpose. They can focus the mind, stimulate discussion, help us make judgments, convey valuable information, and, yes, even encourage us to read books.

De fato, vale uma boa conversa de bar.

(Atualização.: Outra lista literária, desta vez da Foreign Affairs, indica alguns livros para entender a interação Estado-capital, ponto-chave da atual tormenta financeira internacional)

É isso que afirma o colunista da Foreign Policy David Rothkopf em seu blog. Segundo ele, a imprensa finalmente virou a cara dos acontecimentos nas ruas iranianas – para alívio do regime dos aiatolás. Há quem diga, porém, que os leitores já haviam cansado dos protestos antes mesmo de Michael Jackson morrer. Estão perseguindo novamente o rei?

Excelente slideshow  no  NYT.

Conjuntura internacional e evolução institucional explicam queda dos casos de ruptura constitucional (matéria publicada no Estadão, dia 30/6)

Roberto Simon
Os militares e civis que arquitetaram a derrubada do presidente hondurenho, José Manuel Zelaya, são uma espécie cada vez mais rara na fauna política internacional. Analistas afirmam que, desde os anos 80, o número de golpes de Estado no mundo vem caindo ininterruptamente. As explicações para o declínio seriam a conjuntura internacional e as evoluções institucionais de ordem interna.

Um mapeamento de golpes ocorridos entre 1946 e 2007, feito pela Universidade de Heidelberg, revela que houve, em média, 12 tentativas de golpe por ano entre as décadas de 60 e 80. Nos anos 90, em meio ao esfacelamento da União Soviética, a cifra recuou para oito.

Nos últimos três anos, o patamar foi ainda mais baixo: três supostas tentativas em 2007, três em 2008, e duas em 2009. Nas seis décadas analisadas, a África Subsaariana foi palco de 44% das ações, seguida da América Latina, com 24%.

O declínio contínuo do número de golpes seria explicado, em parte, por mudanças no sistema internacional. O apoio soviético e americano à derrubada de governos se esvaziou com o fim da Guerra Fria, apontam os especialistas de Heidelberg. Nenhum golpe, por exemplo, teve sucesso na América Latina desde o fim do confronto bipolar. O fim do processo de descolonização na África e Ásia seria outro motivo para a redução.

Mas o cientista político da PUC-SP Cláudio Gonçalves Couto aponta também para mudanças internas que estimularam a queda no índice. Segundo ele, regimes instáveis foram ganhando uma estrutura institucional mais forte nas últimas décadas. “Nesse contexto, atores do jogo político passam a ver o golpe como uma estratégia pouco interessante”, afirmou ao Estado.

A derrubada de Zelaya seria “a exceção que confirma a regra”, argumenta Couto. Alinhado ao projeto bolivariano, o presidente tentou subverter a ordem sem rompê-la formalmente, pressionando por um referendo que lhe permitisse permanecer no poder, apesar da oposição do Congresso e da Suprema Corte. “Assim, o golpe foi uma reação ilegal a uma ação ilegal.”

Segundo Couto, “a refundação dos Estados por meio de constituintes – fenômeno verificado em países ‘bolivarianos’ como Venezuela, Bolívia e Equador – é uma ‘ruptura sutil’ da ordem que torna a ruptura real desnecessária.”

Para Bernard Lewis, historiador e pesquisador da Universidade Princeton, Irã vive estágio de autoritarismo semelhante ao de outros sistemas revolucionários, como a União Soviética (matéria publicada em 28/6 no Estadão)

Roberto Simon

A atual tormenta política no Irã não se restringe a indivíduos como a manifestante Neda Agha Soltan, que teve sua morte registrada em vídeo, a líderes opositores como Mir Hossein Mousavi ou a homens do regime como o líder supremo, Ali Khamenei. Trata-se, sobretudo, de uma crise de “legitimidade da própria ideia de república islâmica”. A opinião é do mais influente historiador vivo do Oriente Médio, o britânico catedrático da Universidade Princeton Bernard Lewis. Aos 93 anos, ele disse por telefone ao Estado que o Irã vive “um estágio de autoritarismo experimentado em outros sistemas revolucionários, como França e URSS”. E alerta: “O problema não é só que o Irã quer a bomba, mas que é bem capaz de usá-la.”

Como o senhor avalia os protestos no Irã? A combinação de uma república, de fisionomia ocidental, com uma teocracia islâmica está em crise?

Já faz muito tempo que a população iraniana está cada vez mais descontente com seu governo. Agora, isso está vindo à tona. Mas não é algo novo. Acho que há uma perda de legitimidade do regime. Tem-se a impressão de que não se trata de uma objeção restrita a indivíduos. Há um sério questionamento de toda a ideia da república teocrática que foi estabelecida pelos assim chamados “revolucionários” de 1979.

Há ameaça à existência do regime?

Sim, está começando a parecer um desafio à preservação do governo. Até agora, o regime tem demonstrado uma extraordinária durabilidade e convicção, seguindo seu rumo por 30 anos, apesar do que foi feito contra ele.

Analistas dizem que o regime de Ali Khamenei está se tornando uma típica ditadura do Oriente Médio, sem espaços de liberdade, como eleições.

Já é uma típica ditadura. As eleições são encenação. Elas não são o que esperamos que sejam.

O que a história persa pode nos dizer sobre a atual situação? O sr. escreveu, por exemplo, sobre a influência da religião maniqueísta na cultura iraniana. Como essas heranças se manifestam?

É preciso ter em mente que a maioria dos países da região que hoje chamamos de Oriente Médio é uma criação moderna. São invenções recentes, com suas fronteiras desenhadas por estadistas ocidentais. O Irã não é isso. Ele é uma nação antiga, um país e uma nação no sentido ocidental dessas duas palavras. O Irã existe há milênios. Há um sentimento real de nacionalidade e patriotismo entre os iranianos. É algo diferente da maior parte dos países da região, nos quais não há patriotismo. Eles só têm um nacionalismo simples ou uma identidade religiosa. O Irã é um país real, com forte senso de identidade nacional e histórica. É isso que vemos em exercício agora.

Como o sr. avalia ascensão iraniana no Oriente Médio?

Isso certamente é visto por muitos como uma ameaça, algo que se manifesta de várias maneiras. Alguns enxergam o problema de uma perspectiva nacional: o Irã não é árabe. Vizinhos árabes veem tentáculos iranianos se estendendo por uma rota ao norte, do Iraque à Síria, e por uma rota ao sul, em Gaza. Isso é tido como uma ameaça mortal. Esse é o aspecto nacional, pode-se chamá-lo ainda de imperialismo iraniano. Outros sentem-se ameaçados pelo que pode ser definido como o aspecto radical-revolucionário. É preciso lembrar que a maior parte dos regimes no Oriente Médio é de autocracias que governam povos mais ou menos descontentes. Os iranianos tiveram uma verdadeira revolução. O termo “revolução” é pouco usado por governos no Oriente Médio. Mas o que ocorreu no Irã foi uma verdadeira revolução – no mesmo sentido que usamos a palavra para nos referirmos à Revolução Francesa ou à Revolução Russa. Os revolucionários iranianos passaram pelos mesmos “cenários” dessas duas outras revoluções e estamos agora numa fase que pode ser chamada de stalinista ou napoleônica.

O sr. concorda com a ideia de que, caso o Irã alcance capacidade nuclear militar, isso iniciará uma nova era na região?

Um Irã nuclear mudará tudo. O perigo real não é apenas a alteração da situação atual, mas o fato de que os iranianos podem realmente usar a bomba. Lembre-se que o presidente Mahmoud Ahmadinejad e seu grupo têm o que pode ser definido como mentalidade apocalíptica. No islamismo, como no cristianismo e no judaísmo, há uma visão do fim dos tempos. Na versão cristã, Jesus retorna e derrota o anti-Cristo, estabelecendo o reino dos céus na Terra. A versão islâmica é a do Mahdi, descendente do Profeta Maomé, que vem ao mundo, enfrenta o Dadjdjal – equivalente ao anti-Cristo – e estabelece o reino dos céus na Terra. Pelos discursos de Mahmoud Ahmadinejad e de seu grupo, sabemos que eles acreditam que vivemos a fase apocalíptica dessa história. E essa é a luta entre fiéis e infiéis, muçulmanos e o restante do mundo. Certamente é uma mentalidade extremamente perigosa.

Isso significa que a dissuasão nuclear não se aplica ao caso iraniano?

Durante a Guerra Fria, americanos e soviéticos tinham armas nucleares. Mas eles eram dissuadidos de usá-las por causa do que veio a ser definido como “destruição mútua assegurada” (MAD, pela sigla em inglês). Eles sabiam que, se um usasse a bomba, o outro retaliaria e ambos seriam aniquilados. Para pessoas com mentalidade apocalíptica, destruição mútua assegurada não é uma forma de dissuasão, mas de indução. Esta é a mentalidade de um grupo significativo e isso torna a situação extremamente perigosa para o Oriente Médio e para o mundo inteiro.

O sr. escreveu sobre a rivalidade de mais de 14 séculos entre as civilizações cristã e islâmica. O fato de um negro descendente de muçulmanos, chamado Barack Hussein Obama, comandar os Estados Unidos muda alguma coisa? Pode Obama influenciar o que o sr. definiu como “choque de civilizações”?

Acho que não. É preciso ter em mente que o mundo muçulmano está iniciando agora o século 15 da era islâmica. Acredito que estamos lidando com fenômenos que remontam ao início de nosso século 15. Quero dizer, por exemplo, que para o Ocidente o termo “cruzada” tornou-se inaceitável. A ideia de uma guerra religiosa não é mais admissível para nós. Mas para a maioria das pessoas no mundo islâmico isso é aceitável. Eles tendem a ver as “batalhas” de hoje como uma fase da guerra iniciada pelo próprio Profeta Maomé. Há várias religiões no mundo, mas até onde sei existem apenas duas que acreditam ser as verdadeiras detentoras da mensagem de Deus ao homem. Elas teriam a verdadeira fé e seria um dever não mantê-la para si mesmas – como fazem o judaísmo e o hinduísmo – e espalhar essa mensagem pelo mundo, removendo qualquer obstáculo que tiverem pelo caminho. Isso desapareceu na maior parte do mundo cristão. Mas ainda se manifesta no mundo islâmico. Eles veem um conflito ocorrendo entre fiéis e infiéis. Nos últimos séculos, muçulmanos tiveram dificuldades, foram conquistados pelos infiéis, subjugados. Então, gradualmente se libertaram.

Como seria o futuro dessa luta?

Como eles afirmam, há várias fases consecutivas. A primeira é remover os infiéis da atual terra do Islã. A segunda fase é a de recuperar o que foi perdido – não só Israel, mas na Espanha, Portugal, Sicília, Bálcãs e Índia. A fase final é levar a guerra para a terra dos infiéis e estabelecer uma dominação universal. Não afirmo que todos os muçulmanos veem a situação assim. Mas há grupos significativos que enxergam os acontecimentos nesses termos. Assistindo à mídia muçulmana, não é difícil encontrar esse tipo de discurso.

O sr. propôs uma nova divisão de fronteiras para o Oriente Médio (mais informações nesta página). De que forma a questão da formação do Estado moderno na região está presente nos conflitos de hoje?

Espero que um novo arranjo traga paz. Mas isso não é muito plausível atualmente. Como disse, o Estado é uma importação recente na região. À exceção do Irã, praticamente todos os países não foram estabelecidos por por seus próprios habitantes. Foram europeus, em sua maioria ingleses e franceses, que criaram esses Estados sob os escombros do Império Otomano, indo do Iraque ao Atlântico. Acostumar-se com a divisão leva tempo. Alguns Estados da região são tão estranhos à realidade local que nem sequer têm uma denominação em árabe. Não há uma palavra em árabe para Argélia ou Tunísia, usa-se o mesmo termo para Argel e Argélia, Túnis e Tunísia. Não há uma palavra para Arábia. E isso não acontece porque o árabe é uma língua pobre – pelo contrário, é uma língua extraordinariamente rica. Mas eles simplesmente não pensam numa identidade comum, nacional, associada a um território, como fazemos no Ocidente.

Sobre a questão palestino-israelense, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Bibi Netanyahu, admitiu pela primeira vez a existência de um Estado palestino. O sr. acredita que possa haver alguma evolução real em direção à paz?

Todos os predecessores de Netanyahu aceitaram a existência de um Estado palestino. Os palestinos é que não estavam preparados para a ideia, porque não querem aceitar a existência de Israel. É essa a grande dificuldade. Em 1948 a resolução da ONU previa e criação de um Estado palestino. Eles se recusaram e foram à guerra. Após o conflito, esses territórios ficaram sob autoridade de governos árabes, que não formaram um Estado. Em 1967, Israel conquistou vastos territórios e ofereceu devolvê-los, mas os Estados árabes, no congresso de Cartum definiram os “três nãos”: não às negociações, não ao reconhecimento, não à paz. Essa tem sido a regra desde então. Os palestinos querem um país que inclua os territórios de Israel. Ao fim da guerra de 1948, nenhum judeu pôde permanecer em áreas controladas por árabes – eles foram expulsos ou mortos. E não estamos falando de assentamentos, mas de comunidades antigas na região, como a da parte oriental de Jerusalém. É essa a base da questão.

mundo muitcho loco

Saiu o novo relatório da ONU sobre o consumo de drogas mundo afora. Consumiram ilícitos no último ano cerca de 250 milhões de pessoas (mais do que os habitantes do Brasil e da Argentina somados) e até 38 milhões de pessoas têm problemas físicos ou psicológicos com drogas. Curiosidade: Gana é (disparado) o maior consumidor de maconha per capita. Jamaica não está nem entre os dez primeiros.

Sobre nós, Brasil é o maior cocainômano da América do Sul.

e agora, Mousavi?

Quem é Mir Hussein Mousavi? A Time diz que ele foi o elo de Teerã com o Hezbollah nos anos 80. Sem dúvida, Mousavi é um homem do sistema, ex-revolucionário e ex-premiê da República Islâmica, não um Mandela persa.

Com uma semana de manifestações, o fiel da balança começa a pender dos manifestantes para o regime dos aiatolás, que deve conseguir manter a estrutura de poder herdeira do khomeinismo. O discurso de hoje de Khamenei mostra que concessões aos manifestantes simplesmente não constam no script do regime. Mas, antes do nocaute, alguns apontam para o risco praça da Paz Celestial no Irã; leia-se, um ponto final colocado pelo Estado em forma de massacre de manifestantes. Seria o pior.

Obamatamosca

Twitters sérios sobre os protestos: persiankiwi; iran09; lotfan

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