falei, é tortura sim.

Julho 3, 2008

Waterboarding – a técnica de mergulhar n´água a cabeça de um suspeito, “simulando” afogamento, para tascar uma confissão – é tortura? Bush diz que, tecnicamente, não. Ainda mais, seria um instrumento legítimo para combater terroristas que conspiram contra o mundo livre, uma prática que a lei americana deve autorizar. Christopher Hitchens, jornalista da Vanity Fair, desconfiou da opinião dos arautos da Casa Branca. Decidiu então, voluntariamente, submeter-se a esse tipo de interrogatório, com auxílio de especialistas no assunto do próprio exército americano, para dar seu veredicto. A resposta a Bush já vem no título da matéria: “Acredite, é tortura” (Believe Me, It’s Torture - a VF fez também um vídeo).


entre o fim e o começo da história

Julho 3, 2008

As TVs do mundo todo não cansam de repetir a cena de Betancourt descendo do avião, abraçando a mãe, os companheiros de cativeiro, louvando o exército colombiano; finalmente, sendo livre. Engraçado como, na era da comunicação global e instantânea, somos bombardeados com o mesmo fragmento de cena zilhões de vezes. A repetição me trouxe uma sensação próxima da sentida diante das cenas do 11 de setembro, com aquela “tremidinha” chave da câmera quando o segundo avião mergulha na torre que havia resistido, denunciando o susto do cinegrafista amador. Aos poucos, o espectador cria uma intimidade, falsa e sinistra, com a coisa.

De volta ao affaire Ingrid Betancourt, cabem quatro questões centrais a serem respondidas algum dia por historiadores do futuro. Primeiro: que raios estava John McCain fazendo na Colômbia e como ele foi avisado – segundo alguns, horas antes – da operação? Na mesma pergunta: isso vai angariar, realmente, votos do eleitorado latino? Segundo: o que aconteceu nos bastidores da operação no lado das FARC, que dificilmente teriam reunido todos os reféns para embarcá-los à pior zona do conflito, onde supostamente se encontra(va) Alfonso Cano? Terceiro: com o cheque-mate e a perda da rainha, depois dos três membros da cúpula, chegou mesmo o começo do fim dos farquistas? Quarto: Betancourt vai virar presidente? (desnecessário perguntar se ela vai tentar, em algum momento)


Freud, Cristina, Lula, Chávez

Julho 3, 2008

Podemos até ser incapazes de harmonizar tarifas básicas, dos frangos aos sapatos, mas – babem europeus – a reunião do Mercosul em Tucumán, Argentina, pariu uma posição política comum em forma de vitrine. Enquanto a UE digeria o não irlandês ao tratado lisbonense, que concederia uma identidade mais política ao bloco, nossos chefes de Estado bradavam em coro contra as inaceitáveis políticas imigratórias recém aprovadas no velho continente. Lula soltava o verbo, Chávez concordava balangando a cabeça, um sorriso de regozijo brotava dos recauchutados lábios de Cristina Kirschner. Contra a chocante política anti-imigração da UE, que autoriza a detenção até de crianças, unimo-nos.

Claro que o triunfalismo do Mercosul é, no mínimo, irônico. Primeiro que, por ser dirigido à União Européia, ele parece comportar certa dose de rancor edipiano. Nossa União do lado de cá (ainda que só no estágio de “Merco”) foi feita sob a influencia incontestável da União do lado de lá. O pai do Mercosul não é nem a Argentina, nem o Brasil – é a ideologia “dos blocos”, irradiada desde a Europa com força renovada a partir do fim da Guerra Fria. E vontade de superação do pai pode produzir coisas extraordinárias, como dizem psicanalistas. Dessa vez, além da justa reclamação contra os subsídios, ela aglutinou em torno de uma posição, marcadamente política, os países membros. No momento em que a política comum do pai está em frangalhos, parecemos dar um passo à frente, unidos.

Mas a ironia psicanalítica não pára no complexo de Édipo da relação Mercosul-UE. A reunião de Tucumán virou uma espécie de divã aos nossos chefes de Estado, um lugar para onde direcionar dramas e angustias do contraditório mundo em que vivemos. Chávez reclamou do perigo de fragmentação na Bolívia, em solidariedade total a Evo, dizendo que “a Bolívia está sendo atacada por dentro”. De fato é preocupante. Cristina deixou a presidência do Mercosul fazendo um paralelo entre os locautes argentinos, que enfrenta atualmente, e a crise de alimentos que desestabilizou Allende no Chile, em 1973. Na onda, Lula condenou a 4ª Frota da Marinha Americana, que deverá voltar a vigiar (e punir?) pelos mares latino-americanos. “Qual é a razão para que os EUA nos enviem essa frota? Nunca vão admitir que é pelos recursos naturais da região”.

Ao cabo, vale lembrar, os “chefes” estão cobertos de razão. A lei aprovada pela UE criminaliza os imigrantes e é política e moralmente inaceitável – como vários partidos do parlamento europeu e ONG´s locais atestam. Verdade também que questões antes reservadas ao âmbito doméstico, intra-soberanas, têm papel crescente nas instituições multilaterais – seria bom se o Mercosul tivesse uma vocação estabilizadora. Mas a anemia institucional e a potência das pessoas (um coquetel perigoso, como Montesquieu defendeu há dois séculos atrás) deixam a coisa com um aspecto caricatural.


No comment… de Mugabe a Sarkozy

Julho 1, 2008


Irã, Seymour Hersh, The New Yorker

Junho 30, 2008

Merece leitura o artigo do veterano jornalista Seymour Hersh, na New Yorker. Entre outras coisas, Hersh afirma que a Casa Branca e o Congresso americano aprovaram um pacotão de $400 milhões, com o objetivo de ”desestabilizar” (eufemismo para ”derrubar”) o governo iraniano. A partir da CIA e do Joint Special Operations Command (JSOC), os EUA seqüestram autoridades e militares, apóiam grupos de oposição e garimpam informações sobre o programa nuclear dos mulás. Detalhe importante: a política tem o apoio de lideranças do partido democrata, à exceção de alguns, como o candidato presidencial Barack Obama, que defendem um approach diplomático à questão.


Às armas, cidadãos?

Junho 27, 2008

 

O assunto não ganhou uma linha sequer nos jornais daqui, mas está longe de ser desprezível. A França lançou no último dia 17 o seu “Livro Branco“, um imenso memorando que detalha, tim-tim por tim-tim, quais serão suas prioridades estratégicas para os próximos 15 anos. O que chamou a atenção dos analistas foi a reorientação da potência francesa: a confiar no documento e na insistente retórica de Sarkozy, a França quer mudar significativamente sua relação com o mundo.

Primeiro, a maior ameaça prevista não é mais uma invasão maciça de seu território por uma potência estrangeira, o grande medo francês desde os tempos de Asterix. Paris entrou na moda da “Guerra ao Terror”, elencou o “terrorismo” (leia-se, a ação de grupos radicais islâmicos) como principal risco à segurança de la Patrie. Segundo, há uma transposição geográfica dos interesses franceses do Norte da África, seu antigo quintal colonial, para a Ásia, sobretudo o Oriente Médio. Mas, mesmo no mundo árabe-muçulmano, a França parece ter abandonado a posição pró-árabe, tradicional do gaullismo, em benefício de uma aproximação com Israel. A divulgação do Livro Branco aconteceu no momento em que a UE dá alguns passos inéditos na direção do Estado judeu e, dias depois, Sarkozy desembarcou em Tel Aviv (Lluís Bassets escreveu um ótimo post sobre o assunto). Se somada à volta da França à mais alta instância da OTAN (abandonada por De Gaulle), Paris parece ter em vista o estreitamento da relação com Washington – e, na esteira, Londres.

Esmiuçando o documento, fica uma lição simples. Franceses querem manter seu status de potência e sabem que isso só pode ser feito a partir de uma reconfiguração de sua capacidade estratégica. Para isso, o documento não quis “limitar as questões de segurança nacional às Forças Armadas”, incorporando também esferas como a política econômica do país e a “política doméstica”. De novo, na moda da “Guerra ao Terror”, reitera-se a noção de que defesa e segurança, exército e polícia, não são mais tão separáveis. As linhas divisórias se borram em nome da reverenciada “segurança nacional”. O risco evidente, como latino-americanos sabem bem, é que borrar demais as linhas em nome da segurança máxima do Estado pode envolver custos que uma democracia se prepõe a evitar.


60 anos do bloqueio soviético à Berlim

Junho 26, 2008

Foi um dos momentos mais tensos da Guerra Fria. Depois que Stalin decidiu fechar a única estrada que ligava Berlim - à época ocupada por americanos, ingleses, franceses e soviéticos - à região ocidental da Alemanha, o presidente Truman bolou uma “ponte-aérea” para abastecer a cidade, um dos pontos nevrálgicos da então recém-nascida disputa bipolar. Há 60 anos.


Iraquianos: os palestinos do século 21?

Junho 26, 2008

Hoje no NYT, um ótimo artigo de Nicholas Kristoff sobre os refugiados do conflito no Iraque. Reproduzimos aqui alguns trechos:

“Some two million Iraqis have fled their homeland and are now sheltering in run-down neighborhoods in surrounding countries. These are the new Palestinians, the 21st-century Arab diaspora that threatens the region’s stability.

Many youngsters are getting no education, and some girls are pushed into prostitution, particularly in Damascus. Impoverished, angry, disenfranchised, unwanted, these Iraqis are a combustible new Middle Eastern element that no one wants to address or even think about.”

Mais à frente, a culpa:

“We broke Iraq, and we have a moral responsibility to those whose lives have been shattered by our actions. Helping them is also in our national interest, for we’ll regret our myopia if we allow young Iraqi refugees to grow up uneducated and unemployable, festering in their societies.”


no comment… top 20 intelectuais

Junho 25, 2008

Sera que Heidegger bateria o Al Gore?

O mundoentrelinhas havia divulgado o concurso da Foreign Policy Magazine, que se propunha a rankiar os “20 maiores intelectuais públicos do planeta”, a partir do voto de internautas. Confira agora o resultado. Curiosidades: os 10 primeiros são muçulmanos; Al Gore saiu na frente de Umberto Eco e Bernard Lewis; e o único latino-americano a constar na lista foi o lanterninha, pegou em vigésimo – é o “escritor e político” Mario Vargas Llosa.


Victor Bout e a Guerra de Usura

Junho 25, 2008

Ele provavelmente fala russo, uzbeque, inglês, francês, espanhol, farsi, línguas africanas como Xhosa e Zulu, além de português (e é fã confesso de Paulo Coelho). Nasceu talvez no Tadjiquistão, ou Uzbequistão, ou então Turcomenistão. Ganhou fama sob a alcunha de Victor Bout, mas seu nome verdadeiro é alguma coisa entre Victor But, Viktor Bulakin, Vadim Markovich Aminov.

Certeza mesmo, apenas que esse sujeito, sempre adjetivado com o título de “o maior traficante de armas de todos os tempos”, foi preso no dia 6 de março em Bangkok, no vigésimo-sétimo andar de um luxuoso hotel, quando fechava um negócio milionário com supostos milicianos das FARC. Mas não eram farquistas. Eram agentes numa operação conjunta de diferentes países; e assim o grande “war profiteer” ia para a cadeia pela primeira vez.

Ainda que obscura, a história de Bout não é totalmente desconhecida. Hoje aos 46, graduou-se nos anos 80 como intérprete no Instituto Militar de Línguas Estrangeiras de Moscou, coordenado então pela extinta KGB. Em seguida, serviu em algumas missões como soldado da 339a Divisão Aerotransportada. No entanto, em 1991, desmoronou o império soviético, deixando virtualmente órfã a segunda maior armada do mundo. Bout trabalhava numa estação de transporte aéreo da URSS na Ucrânia, que, do dia para a noite, ficara fora do escopo de Moscou - e foi aí que ele achou o mapa do tesouro. Comprou três aviões Antonov, sucatões imensos, para começar uma empresa aérea de cargas que, em uma década, seria a segunda maior companhia operando no Afeganistão (só atrás da Lufthansa) e teria presença marcante em outros países “da periferia”. Mas, com vocação para businessman, Bout entendeu que o negócio era mesmo o porta-malas dos aviões que cruzavam os céus do Leste Europeu à África (depois Oriente Médio). Forrou os Antonov com diamantes, matérias-primas de produtos de alta tecnologia e… um terço de todos os armamentos existentes na Ucrânia no imediato pós-91.

Foi assim que Bout tornou-se um dos maiores agiotas de genocídios e massacres, principalmente no continente africano. Investiu toneladas de armamentos nos Hutus, que barbarizaram os Tutsis em Ruanda. Em Serra Leoa, viu um mercado promissor, fruto da guerra civil (o saldo das lutas no país foi de 50.000 mortos e milhares de decepados à faca. Os algozes mutilavam segundo as “preferências” das vítimas: no cotovelo, a chamada “manga-curta”, ou no pulso, “manga comprida”). Habituado com o business mood de Moçambique, já que lá antes servira como capacete-azul, financiou o grupo Unita também durante a guerra civil (saldo: 500.000 mortos). Em seu portfólio, há ainda organizações (mal-)afamadas, como Hezbollah, Al-Qaeda e Talebã.

Mas Victor Bout era um smithiano, obedecia incondicionalmente a mão invisível do lucrativo mercado da guerra. Em 2004, quando os aviões americanos de carga passaram a ser alvo diário de tiros e foguetes nos arredores do aeroporto de Bagdá, decidiram apelar para as aerolinhas de Bout, que por sua vez, depois de calcular riscos e custos, fechou negócio com o Pentágono. Em troca, segundo diplomatas franceses, seu nome saiu da lista de procurados pelos massacres cometidos na Libéria de Charles Taylor, outro ditador africano cliente gold de sua empresa. O empresário saiu também de listas incômodas do Reino Unido, já que havia fechado contratos com Londres e sua corporação, estranhamente, chegou a operar a partir do território britânico.

Agora, passados quatro meses de sua prisão, será que ele vai, finalmente, abrir o bico? Por enquanto, Victor só está formulando um site para “contar a sua versão da história”. Mas a verdade é que ninguém sabe se ele poderá ser extraditado da Tailândia para alguma corte ocidental. Nem qual país aceitaria essa batata quente.

(Uma das melhores - e mais longas - matérias sobre o personagem foi escrita na revista do NYT. Detalhes técnicos no ISN)