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Este texto saiu no blog Radar Global, do Estadão

Pode parecer estranho, mas oito meses de protestos em apoio a Manuel Zelaya acabaram por criar uma espécie de “cultura zelaysta”. Explica-se: os milhares de hondurenhos que foram às ruas contra o golpe formaram um nicho à parte na sociedade, com músicas típicas e roupas. Zelaya pariu uma “tribo”.

Ontem, na megamanifestação que marcou o exílio do deposto, o fenômeno era evidente. Zelaystas vestem vermelho – estampas de Che Guevara fazem sucesso – e usam chapéu cowboy com uma bandana na altura da testa escrita “Mel” (apelido de Zelaya). Para meninas, há a versão rosa do sombreirão. Tudo pode ser comprado nas tendas de ambulantes, que encontraram nas manifestações um grande filão de mercado.

Além do vestuário, vendedores ainda deixam expostos nas barraquinhas vários CDs com gravações dos principais hinos entoados nas marchas – algo como “As sete melhores de Zelaya”. As músicas têm uma clara influência de Mercedes Sosa e outros ícones cancioneiros da esquerda latinoamericana. No universo brasileiro, seria algo meio Geraldo Vandré. “Nos tienen miedo porque no tenemos miedo”, diz um belo refrão, embalado por um violão encorpado. Há alguns meses, porém, a trilha sonora ainda era precária e o mesmo hino era tocado em cima de carros de som por bandinhas improvisadas. Agora, é gravação de estúdio e remix. O líder da manifestação só precisa apertar o play.

O mascote da tribo zelaysta é um gorila vestido com uma farda. Seu nome: “Goriletti”, em homenagem ao ex-presidente de facto, Roberto Micheletti. O termo que rendeu o personagem foi inventado pouco após o golpe pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez. “Micheletti, Goriletti, golpistas são sempre a mesma coisa”, dissera na época Chávez.

ainda sobre o Haiti

Como a tragédia no Haiti envolve diretamente brasileiros, a imprensa nacional teve um enfoque particular (e, na minha avaliação, bom) na cobertura do evento. Mas vale dar uma olhada no que os jornalões americanos andam falando de interessante sobre a situação haitiana.

Helene Cooper e Mark Lander, do New York Times, fizeram uma ótima reportagem-análise sobre as indas e vindas da relação EUA-Haiti. Em resumo, eles afirmam que a maneira com que Washington lida com Porto Príncipe segue o movimento pendular da diplomacia americana para a América Latina: da negligência à tutela.

Outro texto imperdível é o do Washington Post sobre a questão estética da cobertura jornalística no Haiti. Phillip Kennicot questiona por que as imagens da tragédia haitiana são tão explícitas e dramáticas, enquanto a de outros temas internacionais – como as guerras no Iraque e Afeganistão – são mais comedidas. De lá também vêm fotos de cadáveres e mães abraçadas a bebês carbonizados, soterrados sob pilhas de concreto, mas editores de jornais sérios evitam publicá-las. Por que a exceção quanto ao Haiti?

Entrevista com o professor da PUC-SP Reginaldo Nasser publicada no Estadão de hoje.

Auxílio internacional como o que está em ação no Haiti é cada vez mais ‘militarizado’ e estratégico, diz professor

Roberto Simon

Por trás do sincero discurso de ajuda às vítimas da tragédia haitiana, há um jogo de interesses nacionais cada vez mais explícito, afirma ao Estado o professor de relações internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser. Foi assim na ajuda aos países afetados pelo tsunami de 2004 ou pelo furacão Mitch, de 1998. “Com a ajuda humanitária, vem o direcionamento político”, argumenta.

A tragédia no Haiti desencadeou uma avalanche de ajuda humanitária de vários países. Certamente há uma preocupação real com o povo haitiano. Mas quais são suas implicações geopolíticas?
Tem crescido muito o número de estudos sobre a relação entre ajuda humanitária e interesse nacional. Em casos como o Haiti existe um sentimento solidário, do qual as pessoas são tomadas – e Estados dão vazão a ele. Trata-se de um fenômeno antigo. A novidade é que, com o fim da Guerra Fria, o volume de ajuda cresceu exponencialmente. O Banco Mundial, por exemplo, aumentou em 800% o envio de recursos sob a rubrica “ajuda humanitária” desde o início dos anos 90. Hoje, o mesmo tema é responsável por 30% do orçamento do Pentágono. A ajuda humanitária transformou-se em um projeto político.

Há exemplos concretos sobre essa projeção de poder?
Um exemplo é o tsunami de 2004. Logo depois da tragédia, os EUA enviaram tropas de ajuda ao leste da Ásia, sabendo que o Congresso americano vetava a cooperação militar com a Indonésia por causa da herança da ditadura de Suharto. Sob o argumento da ação humanitária, houve uma reaproximação militar e, ao final, a Casa Branca reverteu o bloqueio do Legislativo. Também com esse tsunami, houve uma aproximação de Washington com o Sri Lanka, que tentava exterminar a guerrilha tâmil. Enfim, por causa do tsunami, os EUA fizeram um grande investimento militar na região.

Imagino que essa reaproximação não se limite à dimensão militar.
Há um aspecto econômico fundamental. Quando houve o furacão Mitch na América Central, em 1998, o Banco Mundial e o FMI ofereceram uma ajuda significativa, mas condicionaram o envio a reformas econômicas. Honduras foi pressionada a privatizar seus portos, aeroportos e sistemas de comunicação. Na ajuda configurou-se um direcionamento do rumo de política econômica que o país devia tomar.

Os EUA parecem ter visto na tragédia do Haiti uma chance de reforçar sua imagem de “potência benevolente”.
Sem dúvida, mas isso sempre existiu. Os EUA têm um sentido missionário, o velho discurso de estender a mão aos povos independentemente de fronteiras. Mas isso ocorria também na Guerra Fria. Na tragédia, americanos são os primeiros a se manifestar.

Por quê?
Por duas razões: além da ideológica, os EUA são a única potência com meios para agir de imediato. Washington tem bases, soldados, navios e aviões no mundo todo. É interessante também notar que a preparação para a guerra tornou-se a mesma que para a ajuda humanitária. Há uma militarização da ajuda humanitária.

Análise publicada no Estadão
Roberto Simon

Ao admitir a possibilidade de manter um diálogo de alto nível com o Hamas, o chanceler Celso Amorim envia uma mensagem inequívoca: o Brasil está disposto a conferir um novo status político ao grupo islâmico e o reconhece plenamente como um interlocutor legítimo da causa palestina. Significativa, a evolução da posição brasileira vai ao encontro da estratégia da facção palestina para romper seu isolamento internacional.

Hoje o Hamas é a alternativa islâmica e armada da causa nacional palestina ante seu eterno rival, o laico Fatah, fundado por Yasser Arafat. Se o segundo reconhece Israel e concorda que o fim da violência passa pelo diálogo, o primeiro carrega em sua carta de fundação a promessa de “destruir a entidade sionista” e recusa qualquer tipo de negociação que leve a uma solução de dois Estados. “A terra palestina é uma dádiva às futuras gerações muçulmanas. Nenhuma parte dela será dividida nem cedida”, diz o documento.

Em 2007 o grupo islâmico expulsou, a bala, o Fatah da Faixa de Gaza. Desde então, está virtualmente isolado no território, cujas fronteiras se encontram bloqueadas por Israel e Egito. O Hamas viu sua situação piorar ainda mais com a brutal ofensiva israelense, há um ano, que deixou 1.300 mortos e limou boa parte do arsenais de foguetes que o grupo atirava contra o sul de Israel.

Até agora não deram resultados os esforços da Arábia Saudita e Egito para a reconciliação entre Hamas e Fatah. Isolado, o grupo islâmico luta para ser reconhecido pela comunidade internacional como um ator legítimo no jogo de xadrez do Oriente Médio – e é nesse contexto que entra a fala de Amorim.

Na esteira da aproximação com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, a nova posição brasileira em relação à questão palestina representa outra alfinetada em Washington, que – assim como a União Europeia – considera o Hamas “terrorista”. Mais do que isso, a mudança do Itamaraty vai na contramão da estratégia de americanos, europeus e árabes moderados de investir todas as fichas na Autoridade Palestina, comandada pelo Fatah, para que o grupo melhore os indicadores socioeconômicos da Cisjordânia, reduza sua corrupção, comprometa-se com uma solução negociada e, assim, torne-se uma alternativa mais atraente à população palestina do que o Hamas, a opção fundamentalista e armada.

Conforme noticiado nestas nobres páginas, a Internacional do Estadão, editoria da qual faço parte, lançou um blog, o Radar Global. Fiquei responsável por uma seção sobre papers e estudos de temas internacionais intitulada “Espaço Acadêmico”. Tentando criar pontes entre cá e lá, “reposto” no mundoentrelinhas meu segundo texto do Radar Global, sobre uma análise do Crisis Group a respeito dos impactos do terceiro mandato de Uribe na guerra à narco-guerrilha. Antes, havia comentado a questão do ópio no Afeganistão.

Qual relação pode ser estabelecida entre episódios como a assombrosa degola do governador de Caquetá, Luis Francisco Cuéllar, na semana passada, ou a união anunciada há duas semanas entre insurgentes das Farc e do ELN contra o governo da Colômbia, e o terceiro mandato de presidente Álvaro Uribe? Mais ainda: como uma nova reeleição do presidente (ele já foi reconduzido ao cargo em 2006 com uma emenda constitucional) determinará a luta contra a narco-guerrilha? São essas questões que o Crisis Group, a principal ONG de monitoramento de conflitos, tenta elucidar em um estudo publicado este mês. O grupo defende que a iminente alteração constituicional que abrirá caminho a um terceiro mandato de Uribe tem, sim, impactos profundos – e potencialmente negativos – sobre a redução da violência colombiana. O argumento que o estudo traz é implícito, mas inequívoco: a fragilização das instituições do país andino, com as fichas colocadas sobre a figura de um presidente-salvador, amplia as sombras legais, políticas e humanitárias do combate à guerrilha.

A receita que o Crisis Group advoga é a redução da “incerteza” político-institucional, a clara “separação de poderes”, autonomia do Tribunal Eleitoral e outros preceitos básicos de um estado de direito e de uma democracia em ação. Sem eles, a própria alcunha do projeto de “Segurança Democrática”, bandeira que Uribe empunha na luta contra a narco-guerrilha, perde sentido.

O Congresso colombiano aprovou em setembro a lei que permitirá a realização de um referendo sobre a reeleição do presidente. Agora, a batata quente está com a Corte Constitucional. Ela deverá se pronunciar sobre a legalidade do terceiro mandato entre o fim de fevereiro e início de março (mês das eleições legislativas). Se houver sinal verde, Uribe terá de conquistar maioria absoluta dos votos, com um quórum de pelo menos ¼ do eleitorado colombiano.

Em suma, o labirinto legal é extenso e complexo. Mas Uribe – lembre-se, reeleito em 2006 após outra reforma constitucional – pode contar com uma cartada decisiva: a aprovação de 64% dos colombianos.

the Godfather

Berlusconi deixa hospital, por Giampiero Sposito, da Reuters

A editoria de Internacional do Estadão, da qual faço parte, lançou um belo blog, o Radar Global. A equipe também está no Twitter. Fica a recomendação.

… e a Michelle fica danada da vida (tem de ver o vídeo até o final). Para quem não lembra, Thalia é aquela cantora mexicana que fez a novela “Maria do Bairro”, do SBT. Trash no último.

Taí uma boa análise.

Em artigo publicado hoje no Monde, Sarkozy defendeu o veto que os suíços impuseram, via referendo, à construção de minaretes. Para o presidente francês, a mídia de seu país foi preconceituosa com a escolha da Suíça – cuja democracia é “direta” e “antecede à da França”, bajulou o presidente. Com sua popularidade no nível mais baixo desde que foi eleito, em 2007, Sarkozy quer relançar o debate da laicidade contra os “símbolos religiosos ostensivos” (em sua esmagadora maioria, muçulmanos), quase cinco anos após a polêmica proibição do véu islâmico nas escolas públicas da França. Chegou a hora, diz o francês, de discutir a “identidade nacional”.

A ideia lá no fundo não é de todo mal. O que a França mais teme é a lógica comunitarista: o aval do Estado à criação de grupos isolados com seus “costumes naturais”, porém privados da cidadania. É assim na Inglaterra. Mas as implicações de traçar uma clara linha divisória entre o “nós” e o “eles” – Sarkozy fala no texto dos que “chegam” (imigrantes) e dos que “recebem” (franco-franceses) – são assombrosas. Eficiente em roubar eleitores da extrema-direita, esse discurso politiqueiro trata a “identidade” como um fenômeno acabado, sem dinâmica própria, um passe exclusivo – o qual, como no modelo comunitarista, limita a cidadania.

O filósofo Tzvetan Todorov comparou o projeto de criar um Ministério da Identidade Nacional, proposto por Sarkozy, com os ministérios fictícios criados por George Orwell no clássico 1984: o da Verdade, do Amor, da Paz, da Abundância.

Por que julgamos indesejáveis esses ministérios de Orwell? Não porque somos contra a Verdade ou o Amor. Mas porque pensamos que essas grandes categorias não dizem respeito à ação governamental. É aos cientistas e jornalistas que se deve deixar a busca livre da verdade; cada indivíduo deve lidar com seus casos amorosos. Nem o governo nem o Parlamento têm o direito de interferir. É assim que nossa democracia é liberal: o Estado não controla totalmente a sociedade civil; dentro de certos limites, cada indivíduo permanece livre.

Ele continua com um argumento ótimo: “apenas as sociedades mortas têm uma identidade (nacional) imutável. A França de 2007 tem poucas semelhanças com a de 1907 e menos ainda com a de 1707″.

Mas não é só na França que o veto aos minaretes imposto pela Suíça tem admiradores. Uma pesquisa mostra que se o mesmo referendo fosse realizado na Alemanha, Espanha, França e Bélgica, a proibição à construção islâmica venceria em todos os países.

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