
Ele provavelmente fala russo, uzbeque, inglês, francês, espanhol, farsi, línguas africanas como Xhosa e Zulu, além de português (e é fã confesso de Paulo Coelho). Nasceu talvez no Tadjiquistão, ou Uzbequistão, ou então Turcomenistão. Ganhou fama sob a alcunha de Victor Bout, mas seu nome verdadeiro é alguma coisa entre Victor But, Viktor Bulakin, Vadim Markovich Aminov.
Certeza mesmo, apenas que esse sujeito, sempre adjetivado com o título de “o maior traficante de armas de todos os tempos”, foi preso no dia 6 de março em Bangkok, no vigésimo-sétimo andar de um luxuoso hotel, quando fechava um negócio milionário com supostos milicianos das FARC. Mas não eram farquistas. Eram agentes numa operação conjunta de diferentes países; e assim o grande “war profiteer” ia para a cadeia pela primeira vez.
Ainda que obscura, a história de Bout não é totalmente desconhecida. Hoje aos 46, graduou-se nos anos 80 como intérprete no Instituto Militar de Línguas Estrangeiras de Moscou, coordenado então pela extinta KGB. Em seguida, serviu em algumas missões como soldado da 339a Divisão Aerotransportada. No entanto, em 1991, desmoronou o império soviético, deixando virtualmente órfã a segunda maior armada do mundo. Bout trabalhava numa estação de transporte aéreo da URSS na Ucrânia, que, do dia para a noite, ficara fora do escopo de Moscou - e foi aí que ele achou o mapa do tesouro. Comprou três aviões Antonov, sucatões imensos, para começar uma empresa aérea de cargas que, em uma década, seria a segunda maior companhia operando no Afeganistão (só atrás da Lufthansa) e teria presença marcante em outros países “da periferia”. Mas, com vocação para businessman, Bout entendeu que o negócio era mesmo o porta-malas dos aviões que cruzavam os céus do Leste Europeu à África (depois Oriente Médio). Forrou os Antonov com diamantes, matérias-primas de produtos de alta tecnologia e… um terço de todos os armamentos existentes na Ucrânia no imediato pós-91.
Foi assim que Bout tornou-se um dos maiores agiotas de genocídios e massacres, principalmente no continente africano. Investiu toneladas de armamentos nos Hutus, que barbarizaram os Tutsis em Ruanda. Em Serra Leoa, viu um mercado promissor, fruto da guerra civil (o saldo das lutas no país foi de 50.000 mortos e milhares de decepados à faca. Os algozes mutilavam segundo as “preferências” das vítimas: no cotovelo, a chamada “manga-curta”, ou no pulso, “manga comprida”). Habituado com o business mood de Moçambique, já que lá antes servira como capacete-azul, financiou o grupo Unita também durante a guerra civil (saldo: 500.000 mortos). Em seu portfólio, há ainda organizações (mal-)afamadas, como Hezbollah, Al-Qaeda e Talebã.
Mas Victor Bout era um smithiano, obedecia incondicionalmente a mão invisível do lucrativo mercado da guerra. Em 2004, quando os aviões americanos de carga passaram a ser alvo diário de tiros e foguetes nos arredores do aeroporto de Bagdá, decidiram apelar para as aerolinhas de Bout, que por sua vez, depois de calcular riscos e custos, fechou negócio com o Pentágono. Em troca, segundo diplomatas franceses, seu nome saiu da lista de procurados pelos massacres cometidos na Libéria de Charles Taylor, outro ditador africano cliente gold de sua empresa. O empresário saiu também de listas incômodas do Reino Unido, já que havia fechado contratos com Londres e sua corporação, estranhamente, chegou a operar a partir do território britânico.
Agora, passados quatro meses de sua prisão, será que ele vai, finalmente, abrir o bico? Por enquanto, Victor só está formulando um site para “contar a sua versão da história”. Mas a verdade é que ninguém sabe se ele poderá ser extraditado da Tailândia para alguma corte ocidental. Nem qual país aceitaria essa batata quente.
(Uma das melhores - e mais longas - matérias sobre o personagem foi escrita na revista do NYT. Detalhes técnicos no ISN)