1. Quais foram as principais decisões?
Foram três grandes decisões tomadas pelos poderosos na mais recente cúpula da OTAN, que aconteceu entre os dias 2 e 4 de abril, em Bucareste:
Quem ingressa e quem espera: Ucrânia e Geórgia não serão admitidas no chamado Membership Action Plan (MAP), conjunto de normas políticas, econômicas e militares imposto pela Aliança aos candidatos à entrada – na prática a ante-sala à adesão total. Albânia e Croácia foram oficialmente convidadas. Enquanto a Macedônia não resolver sua crise com a Grécia – leia-se, mudar de nome – terá que esperar.
Escudo antimíssil: pela primeira vez na história da aliança, a OTAN apóia o projeto americano que busca desenvolver um sistema anti-balístico de alta tecnologia, com radares baseados na República Tcheca e interceptadores em solo polonês. O alvo da dissuasão supostamente seria o Irã, mas a Rússia vê a instalação como uma ameaça direta a sua segurança. Duas promessas de Washington foram capazes de convencer aliados ocidentais mais reticentes: primeiro, Bush garantiu que vai deixar o dispositivo em stand by até que o Irã tenha capacidade real de ataque ao território europeu; além disso, a questão deverá ser trabalhada em estreita cooperação junto às autoridades russas, com militares de Moscou inspecionando o projeto. Regan sonhou com o escudo Star Wars, hoje Bush deu uma passinho a mais.
Guerra do Afeganistão: a OTAN diz reforçar seu compromisso na luta contra o Talebã e a Al Qaeda, quase sete anos após os mulás serem derrubados de Cabul. No discurso de abertura, Bush solicitou mais 47.000 soldados em solo afegão – cifra incompatível com a capacidade real da OTAN atualmente. Mas saiu com a promessa de ajuda, sobretudo de países da União Européia, quanto ao treinamento de forças afegãs e a um aumento tímido no número de soldados. Sarkozy garantiu que enviará mais 700 homens ao Afeganistão, além de anunciar que a França voltará, em 2009 (depois de quatro décadas), ao comando integrado da organização - cérebro militar da OTAN.
2. Por que Geórgia e Ucrânia não foram admitidas agora?
Na primeira e última participação numa cúpula da OTAN, Vladimir Putin – que (pelo menos oficialmente) deixará a presidência em maio – pôs em guarda a aliança: “a OTAN não pode garantir sua segurança à custa de outros países”. Ou seja, a entrada desses dois ex-satélites soviéticos significaria uma distância ainda maior entre o Ocidente e a cada vez mais agressiva Moscou. Esse cenário causa arrepios em vários países europeus, sobretudo França e Alemanha, que dependem diretamente do suprimento de gás russo. Ainda, Paris e Berlim afirmaram que a instabilidade política vivida nos dois países-candidatos não permitiria a entrada deles na OTAN. Bush acabou sendo o único defensor efetivo do alargamento da aliança à leste, mas, com o isolamento, Washington recuou. O apoio europeu ao escudo antimíssil, abominado pelos russos, deverá servir de consolo.
Vale a pena ler a análise de Bertrand Badie, professor do Institut d´Etudes Politiques de Paris, sobre a OTAN despida do mundo bipolar, publicada no Monde.
