Merkel avisou que não vai. O Primeiro Ministro da Polônia e o da República Tcheca, também. Sarkozy é outro que ameaça não comparecer e impõe pré-condições às autoridades chinesas. Bush estará na primeira fila.
Enquanto Pequim termina de afinar os instrumentos para a maior festa do esporte, o debate sobre o boicote à cerimônia oficial de abertura ganha força. A ONG Repórteres Sem Fronteiras tenta capitanear, com camisetas e bloqueios à tocha, um gelo ao país que chama de “a maior prisão de jornalistas e cyberdissidentes do mundo”. Do outro lado da discussão, além dos pragmáticos e economicistas, estão alguns intelectuais influentes, como Slavoj Zizek, que questionam o binômio moçinho-bandido, acentuado pela recente crise no Tibete, que parte da mídia global acaba por reproduzir.
Sobre a questão, um bom começo seria perguntar “o que há de político nos Jogos Olímpicos”? Resposta imediata: o evento serve para mostrar a potência, modernidade e dinamismo da nação-sede. Isso vale de Pequim em 2008, até Berlim em 1936, passando por Londres em 1948 e Seul em 1988. Ainda, a medalha é signo de um prestígio nacional, representação da grandiosidade de um país. Outra faceta inquestionavelmente política.
Hoje, o boicote mais lembrado é o de Jimmy Carter aos jogos de Moscou, em 1980, feito em resposta à invasão soviética ao território afegão, ocorrida um ano antes. Na ocasião, o comitê olímpico americano decidiu não participar e o governo (enquanto mandava agentes da CIA treinar os mujahedins, ou freedom fighters, para lutar o comunismo no Afeganistão) disse que arrancaria os passaportes dos atletas que ousassem embarcar para o outro lado da cortina de ferro. Menos lembrado é o troco. Moscou boicotou os jogos olímpicos de Los Angeles, em 1984, alegando que sua delegação não estaria suficientemente protegida nos EUA. Líbia e Irã também não compareceram por razões óbvias. Quatro anos depois, em Seul, a Coréia do Sul vetou a co-participação, como país sede, da Coréia do Norte, que decidiu então não comparecer, apoiada por Cuba e Etiópia. Antes de tudo isso, a participação neozelandesa na olimpíada de 1976, em Montreal, fez com que vinte países africanos se recusassem a fazer as honras canadenses. Isso porque a Nova Zelândia havia participado de um campeonato de rugby na África do Sul sob o regime de apartheid. Voltando mais ainda no tempo, os jogos de Melbourne, em 1956, foram boicotados por causa da invasão da URSS à Hungria, da Crise de Suez e da questão taiwanesa.
Em resumo, a história dos jogos olímpicos pode ser contada pela sucessão de boicotes. Até aí, nada de novo. O que é diferente em relação à Pequim é a conjuntura internacional: a Guerra Fria acabou. À época do equilíbrio nuclear entre EUA e URSS, guerra significava suicídio mútuo (ou MAD, Mutual Assured Destruction, segundo o jargão militar). Com a via militar obstruída, o embate entre as potências era transposto aos conflitos na periferia do sistema e a disputas simbólicas, como a corrida espacial e… os jogos olímpicos. O que muda no mundo de uma potência só, os EUA? Está aí uma outra boa pergunta.
(Ainda sobre o assunto, vale ler o que diz a Economist).

Adorei o seu blog! Tou lendo dos EUA, e acho uma boa maneira de me atualizar nos eventos mundiais enquanto praticar o meu portugues ruim!
Keep up the good work!
Vou passar o seu link aos meus amigos….
Adorei o blog!! Estava mesmo faltando um espaço como este, poder colocar as pessoas pra refletir, debater…bela iniciativa!
Precisamos de mais mundoentrelinhas, em várias áreas do conhecimento…
Bjs, parabéns!
Caríssimo Roberto,
Muito interessante o seu artigo, como o seu blog.
O que há de político nas Jogos Olímpicos? Como você colocou, o dinamismo e a potência do país-sede expostos ao mundo todo. Mas, além, a aparência de que, apesar de tudo, estamos todos unidos. Apesar de guerras e disputas comerciais por vezes obscuras, o esporte nos une sob a ética do mérito e da competiçao limpa e honesta. Afinal, somos todos humanos e competimos em iguais condiçoes (daí a «sujeira» do doping)
Nesse sentido, para levar adiante a sua pergunta, o que há de político no boicote aos Jogos Olimpicos? Muito. Nos mostra que os problemas sao tamanhos que nem o esporte pode nos unir. E cá entre nós: qual seria hoje o interesse americano em boicotar os Jogos de Pequim? Com US$ 245,1 bilhões de títulos da dívida externa em mao chineses, acredito que nenhum. Um dia, talvez.