Pá-pum: as Farc e o mundo

A poeira baixou, mas o assunto ainda está aí. Alguns analistas afirmam que a incursão colombiana que matou Raul Reyes em território equatoriano, há quase dois meses, é uma expressão da paulatina internacionalização da questão das Farc. Outros vêem a agressão como continuidade de um processo político interno que já tem quase cinqüenta anos – uma crise, antes de mais nada, nacional. Para debater o tema, o mundoentrelinhas convidou dois analistas que andaram pequisando o assunto e discordam sobre a relação entre as Farc e o mundo: Daniel Simões, geógrafo de formação e mestre em Relações Internacionais pela PUC-SP, e Fábio Borges, economista e doutorando em Sociologia pela Unesp. Cada um falou e teve direito a réplica e tréplica. Veja os arumentos.

“A recente violação da soberania equatoriana pela Colômbia representa uma internacionalização da questão das Farc?”

Daniel Simões – Não, o conflito na Colômbia é nacional. Se analisarmos a história do conflito colombiano, podemos observar que este é, preferencialmente, ligado ao plano interno, tanto no que se refere aos objetivos em disputa, quanto em relação aos atores envolvidos. Se admitíssemos os desentendimentos recentes com o Equador como manifestações de internacionalização do conflito, deveríamos também assumir a intervenção dos Estados Unidos através de sua Doutrina de segurança nacional, nos anos 60, bem como o apoio cubano às guerrilhas do ELN como exemplos anteriores desta suposta internacionalização. Ainda, se considerarmos as freqüentes incursões dos guerrilheiros através de fronteiras vizinhas, a internacionalização não soaria como característica nova, uma vez que a vigilância das fronteiras amazônicas vem se mostrando, há muito, insuficiente e que tais fronteiras são freqüentemente desrespeitadas por guerrilheiros, contrabandistas e narcotraficantes.

Fábio Borges – Sim, representa uma internacionalização de seus conflitos. O conflito colombiano nasceu como uma questão nacional, com atores nacionais, porém hoje influencia e é influenciado por outros grupos, que estão fora de seu território. Pelo aumento da escalada do conflito, resultado da ampliação das Farc, além do maior envolvimento dos EUA, problemas fronteiriços serão mais constantes. A estrutura dos conflitos colombianos é complexa, envolvendo guerrilheiros traficantes de drogas, camponeses, paramilitares que no início eram nacionais, porém, hoje sem dúvida apresentam relações internacionais importantes. Um exemplo disso é o apoio financeiro internacional que recebem os guerrilheiros, seja intencional (supostamente originário de algum governo, como o de Chávez) ou pelos consumidores de cocaína, especialmente estadunidenses. Além disso, trocam cocaína por armas, como foi provado pelas ligações do traficante brasileiro “Fernandinho Beira Mar” com as FARC, implicando em conseqüências negativas para o Brasil. Sobre o envolvimento dos EUA, ele ao influenciar o governo colombiano a tentar resolver seus problemas militarmente, agrava os conflitos, inclusive implicando em outra vertente de internacionalização da violência: a ambiental, pois quando fazem políticas de fumigação, contaminam o solo e a água dos rios colombianos que vão parar em países vizinhos, como o Brasil.

Daniel Simões – Não, a idéia de plena internacionalização do conflito é enganadora. Não restam dúvidas de que o conflito colombiano apresenta profundos desdobramentos internacionais. Daí a dizer que tenha efetivamente se tornado um conflito internacional, parece ser mais complicado. Se aceitarmos a tese da plena internacionalização, com base nos argumentos de que o conflito recorre freqüentemente ao transbordamento das fronteiras ou ao financiamento do narcotráfico, poderíamos dizer que o conflito é internacional desde seu início. O narcotráfico, por exemplo, está em território colombiano desde os anos 70, com uma clara orientação exportadora. As intervenções americanas também estão longe de ser novidades, como no caso das sementes do conflito, muitas delas plantadas durante a ditadura de Gustavo Rojas Pinillo, na década de 1950. O que me parece um tanto problemático é atribuir às recentes ações em solo equatoriano o marco definitivo da internacionalização. O próprio caso Ingrid Betancour poderia ser um exemplo dessa internacionalização, dada a cidadania francesa da mesma. O estardalhaço em torno dos bombardeios soa mais como alarde midiático do que como problema de fato. Também não parece interessar nem às Farc, nem aos governos vizinhos a internacionalização declarada.

Fábio Borges – Sim, a internacionalização está colocada como tendência. Estou de acordo que a recente ação em solo equatoriano não seja o marco definitivo da internacionalização, contudo é um evento importante que sustenta a idéia da tendência à internacionalização dos conflitos colombianos. Novamente insisto no fato do aumento da escala dos conflitos. Certamente as relações internacionais estavam presentes nas origens dos conflitos colombianos nos anos 1960, com destaque para os interesses estadunidenses na Guerra Fria, mas o financiamento das guerrilhas através das drogas foi mudando, no sentido de uma ligação mais direta. Cabe destacar que esse negócio movimenta hoje um volume de dinheiro muito maior que nos anos 1970, estimado em 400 bilhões de dólares no ano de 2003. Isso, aliado aos maiores financiamentos à Colômbia por parte dos EUA na década de 1990 (destaque para os 1,3 bilhões de dólares em 1999, no chamado Plano Colômbia) amplificaram os impactos dos conflitos, numa tendência à internacionalização geográfica. Por fim, a internacionalização é sim utilizada na estratégia da mídia, porém, o fato é que a solução só foi possível na Reunião dos Estados Americanos (OEA) em 7 de março de 2008, onde o presidente equatoriano Rafael Correa aceitou as desculpas do chefe de Estado colombiano Álvaro Uribe demonstrando o tratamento internacional que o conflito teve. As teorias realistas focadas apenas nos Estados Nacionais estão dissonantes com as novas tendências.

Daniel Simões – Não. A idéia de “internacionalização” como discurso. De fato, é notável a idéia de que a internacionalização estaria em conformidade com os interesses dos Estados Unidos e do governo da Colômbia. Por outro lado, essa hipótese parece pouco plausível se tomarmos em conta o fato de que a “internacionalização” não interessa nem ao principal protagonista dos conflitos, a própria guerrilha, nem aos países que fazem fronteira com a zona de conflito. Do ponto de vista da guerrilha, assumir a internacionalização significaria incluir novos atores contrários a sua atuação no tabuleiro do conflito. Essa situação tenderia a reforçar o controle transfronteiriço, bem como a cooperação entre os exércitos, reforçando o poderio de repressão contra as guerrilhas. Parece ainda mais improvável que a internacionalização interesse a países vizinhos que, embora estejam cientes do uso eventual de regiões fronteiriças de seus territórios pelas guerrilhas, têm optado por minimizar tal fato. Declarar guerra contra a guerrilha significa dispor-se a tolerar ataques da mesma contra seus territórios, além de atentados, sabotagens e seqüestros. Reitero, nesse sentido, o caráter muito mais voltado ao “discurso” da internacionalização do que sua prática efetiva.

2 Respostas para “Pá-pum: as Farc e o mundo”

  1. Cris L. Disse:

    É claro que representa uma internacionalização! Impossível pensar hoje o conflito sem os atores extra-colombianos. Aliás, mais um motivo para cobrar um posicionamento menos ambiguo de nossa política externa.

  2. Ana Wainer Disse:

    Pode ser uma internacionalização, mas por enquanto se manifeta como puramente Sul-Americana. Durante a tempestade não li sequer uma nota no Times sobre o conflito - e o problema das soberanias. Quem sabe alguma análise interessante aparece na Foreign Affairs.
    (direto de NY, yours truly)

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