Hillary, Obama e o Mundo

Que fique bem claro: os dois são quase iguais, mesmo quando o tema é o futuro da relação dos EUA – maior potência da história da Humanidade – com o mundo. Sim, Hillary apoiou inicialmente a invasão do Iraque, tema-chave de política externa nas eleições, e Obama (ele não cansa de repetir isso) foi sempre um opositor da derrubada unilateral de Saddam. Mas, com o tempo, os dois se enfileiraram contra Bush e, hoje, tanto a nova-iorquina como o senador de Illinois vociferam sobre a necessidade de uma retirada americana gradual. (O republicano John McCain, por sua vez, fala de “mais cem anos” na região, se for necessário)

Hillary Clinton e Barak Obama também convergem de modo geral quanto à ameaça iraniana. Os aiatolás não devem pôr as mãos na bomba e mexer com Israel seria um suicídio – Hillary disse que os EUA poderiam “aniquilar totalmente” o Irã, caso Teerã lançasse um ataque nuclear contra o território israelense. Outro ponto em comum é a recusa em negociar com o Hamas, enquanto o grupo palestino não abandonar as armas e aceitar formalmente a existência de Israel.

Menos belicosa, a proteção dos mercados americanos (forma tucanada de dizer “protecionismo” nos debates) também não é lá tão distinta entre Clinton e Obama. Ele acusa ela de patrocinar a Nafta. Ela acusa ele de bloquear legislação que protegeria os EUA de formas desleais de competição comercial. Porém, ao cabo, os dois sinalizam que tentarão evitar a fuga de empregos e capital para países emergentes.

No entanto, por serem quase iguais – e candidatos ao posto de maior poder no mundo – impossível não tentar analisar as diferenças. Cuba, por exemplo, é a mais nítida delas. Hillary defende a manutenção do embargo, Obama diz estar pronto a uma eventual negociação com os castristas.

Para tentar fugir da inevitável retórica eleitoreira e projetar como seria, de fato, a política externa de uma possível presidência democrata a partir de novembro, um olhar sobre as equipes dos candidatos pode ser um exercício interessante. Afinal, quem hoje cochicha na orelha dos dois, cochichará também – talvez enobrecido por algum cargo como Secretário de Estado ou da Defesa – quando (e se) um deles for presidente. Alguns analistas dizem que os conselheiros da ex-primeira-dama, em sua maioria veteranos da gestão de seu marido, defendem uma postura mais agressiva (hawkish) no cenário internacional do que os de Obama. Boa parte deles apoiou inicialmente a Guerra do Iraque, mas depois de alguns meses, arrependeu-se e mudou de campo. Já os da equipe de Barak Obama teriam um perfil mais jovial e militaram – com mais ou menos virulência – desde o princípio contra a aventura de Bush. Eles se dizem parte de uma nova geração, e a eleição de Obama supostamente representaria uma ”passagem do bastão” na política externa americana.

O mundoentrelinhas decidiu assim listar alguns dos principais conselheiros de Hillary e Obama para tentar entender as diferenças menos evidentes. As interpretações ficam a cargo do leitor…

 

O time de Hillary Clinton

Richard Holbrooke: apontado como provável Secretário de Estado numa gestão Hillary Clinton, foi embaixador dos EUA na ONU durante a presidência de Bill Clinton e articulou os acordos de Dayton, que colocaram fim à Guerra da Bósnia. Holbrooke – que serviu também quando Carter era presidente – defendeu a legitimidade de um ataque contra o Iraque de Saddam, mesmo sem o apoio da Europa. Depois, pulou para o outro lado e afirmou que a guerra foi “o maior desastre da política externa [americana] desde a Guerra do Vietnã” - por ironia ou não, Holbrooke também fez parte da delegação que negociou o fim da Guerra do Vietnã. Ele é colunista do Washington Post.

Madeleine Albright: primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Estado dos EUA, ela era a principal voz de Bill Clinton para assuntos internacionais. Especializou-se em Europa Oriental e Rússia e hoje dá aulas na Universidade de Georgetown. Albright disse que o Iraque poderá ser “um desastre ainda maior que o Vietnã“.

Sandy Berger: ocupou o alto escalão de Bill Clinton como National Security Advisor e foi um dos idealizadores da estratégia americana para os Bálcãs nos anos 90. Hoje é diretor de uma consultoria especializada em mercados emergentes – Rússia, Índia, China e… Brasil.

Martin Indyk: duas vezes embaixador dos EUA em Israel, ele era a principal voz na administração de Clinton sobre assuntos relacionados ao Oriente Médio – Indyk era responsável pela região no National Security Council durante os mandatos do marido de Hillary.

 

O time de Barak Obama

Samantha Power: autora de uma biografia do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, assassinado no Iraque, Samantha Power é jornalista e professora de Harvard, especialista em temas como direito internacional e genocídio. Ela advoga a necessidade de se colocar a resolução do conflito palestino-israelense como prioridade total na estratégia americana para o Oriente Médio. Apesar de seu currículo brilhante, Power não tem grande experiência na administração pública. Após ter chamado Hillary Clinton de “monstro”, ela se afastou dos palanques de Obama, mas continua sendo um nome de peso na equipe do senador.

Zbigniew Brzezinski: National Security Advisor de Carter no final da década de 70 e depois especialista em armas químicas de Regan, Brzezinski é conhecido por sua visão de mundo associada à chamada escola realista de Relações Internacionais. Entre as ações que marcaram seu currículo estão a negociação dos acordos de limitação de armas estratégicas (Salt II), a utilização de islamistas afegãos para lutar contra a URSS durante a invasão soviética ao Afeganistão e os acordos de Camp David, para a construção da paz no Oriente Médio.

Dennis Ross: Além de autor de um dos maiores clássicos sobre o tema, Ross trabalhou como articulador das negociações de paz no Oriente Médio durante a década de 90. Hoje ele é diretor do Washington Institute for Near East Policy.

Richard Clarke: Não por acaso conhecido como czar anti-terrorista, ele trabalhou como especialista no assunto para Bill Clinton e, depois, para George W. Bush. No entanto, Clarke tornou-se um dos principais críticos da estratégia de Bush contra o terrorismo e da Guerra no Iraque. Seu livro virou best-seller.

4 Respostas para “Hillary, Obama e o Mundo”

  1. notowar Disse:

    Já sabemos então: será mais do mesmo. As mesmas figurinhas de antigamente, nem o jovem Obama escapa!
    Adorei as informações!

  2. Lucas Disse:

    Belo trabalho, senhor Roberto.

    Ótimas informaçoes.

    E a reforma gráfica foi boa também.

  3. Ana Disse:

    Robi, muito legal a análise. De fato, parece que não há diferenças importantes entre os dois candidatos, porém são nos pequenos detalhes que eles poderão se diferenciar, como no caso da escolha de suas equipes. Ótima análise!

    Beijos, Ana.

  4. Rettmann Disse:

    Robi,
    muito boa a análise. Pelo que você coloca, eu prefiro o Obama, já que representa uma oposição um pouco menos mutável….Não sei qual seria melhor para o Brasil, mas parece que ambos são bem parecidos mesmo.

    queria saber qual sua análise sobre o processo que está ocorrendo na Bolívia, com alguns departamentos querendo autonomia, você tem alguma opinião?

    beijos!

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