do nosso correspondente-intelectual no Canadá

Texto de Lucas Pavan

Maio de 68, quarenta anos depois – Ou sobre como vender alguns livros e revistas em 2008

Daniel Cohn-Bendit, líder máximo do movimento sem líderes de maio de 1968 na França, acaba de lançar um livro chamado Forget 68 – assim mesmo, em inglês, para o mundo todo. Seu argumento é simples: maio de 68 venceu. Tudo contra o que lutamos à época é passado. Somos (não eu – eles, os eternos-jovens de 68 ) vencedores históricos. Agora o passo seguinte é esquecer 68 e partir para uma ação política renovada, com novas pautas e consciência de época. 

Confesso que estou totalmente de acordo com o senhor Bendit. 68 venceu. Os problemas são outros. As soluções também. Não apenas o maio de 68 francês, mas todo o “espírito 68″ (ler meia-oito) é vencedor. Se apoiar nos mesmos ideais de nossos pais e de seus amigos barbados é falta de consciência histórica e política. Daniel Cohn-Bendict, o senhor tem razão. 

Mas, acho que esquecemos de algo muito importante: “senhor Bendit, você avisou os adversários?”. Apelemos à anedota de Garrincha, um sábio entre os sábios. Diz ela que Garrincha, ao ouvir de seu técnico o pedido para que iniciasse a partida driblando todos os adversários, indagou-lhe sabiamente se eles já estavam sabendo de tudo. Diante de resposta negativa, driblou todo mundo mesmo assim. Na falta de Garrinchas da política contemporânea, acho que nossa tarefa é mais difícil.

Dia 5 de maio de 2008, as comemorações dos 40 anos mal começaram, e os olhos já se cansam de tanto ler sobre 68. Cadernos especiais de jornais, revistas com “edições de colecionador”, livros de velhos-jovens barbudos nas livrarias, camisetas na banca da esquina onde se lê “é proibido proibir” sob a marca do No Logo: na cacofonia de vozes, difícil esquecer que temos ouvidos.

Esquecer 68 hoje é como esquecer Che Guevara. Ou, melhor, para os olhos atentos, ambos já foram esquecidos. E há muito. Se consumimos tanto 68, se produzimos materialmente tanto sobre ele sem que com isso produzamos o essencial – ação política renovada e consciente de seu tempo – é porque ele já está esquecido há muito tempo. Dizer, porém, que essa apatia “é tudo culpa de maio de 68″ é ao mesmo tempo complexo de grandeza – presente em muitos soixante-huitards – e neo-reacionarismo estéril. Não é culpa de 68, mas falta de deux-mille-huitards.

Em meio às vozes que ecoam 68 nos jornais e nas ruas do contemporâneo – as “avenidas da Internet” – poucas vêm de jovens. Lembremos, claro, os meia-oito são jovens eternos! Mas sem cair em pós-modernismos e pensando no tempo como um absoluto, poucos são jovens na idade. Sinal, caro Bendit, que 68 venceu em termos. Se um de seus grandes triunfos foi “constituir a juventude como sujeito histórico” – como se lê por aí – vemos que esta anda hoje meio assujeitada. 

Como agir politicamente em 08? Não sei. Mas acho que um primeiro passo é não consumir euforicamente os inúmeros “dossiês 68″ que circulam por aí. Fazer um pouco do que indica meu soixante-huitard preferido, morto no ano passado, André Gorz: produzir valor-em-si. Não se produzir e não consumir conhecimento como valor de troca. IH, mas aí começo a ver em mim o jovem de 68. Melhor parar e esquecer tudo isso.

(Para ler sobre o assunto: NY Times, Le Monde, Folha)

3 Respostas para “do nosso correspondente-intelectual no Canadá”

  1. roberto simon Disse:

    Espero que o texto - brilhante, é bom dizer - inicie uma colaboração permanente. O blog bem que tá precisando de um correspondente…
    Valeuuuuuu!

  2. Saldanha Disse:

    Contra o Maio de 68 só o Maio de 69. Lucas to contigo e não abro.

  3. Helena Disse:

    Por não saber como agir politicamente em 08, acabou repetindo o mesma cacofonia de seus contemporâneos, escrevendo sobre maio de 68, e criticando os seus dossies infindáveis… as efemérides tem a únca utilidade de tornar vivo è memória de quem ainda não era nascido na época (como eu) os pensamentos que nos formam hoje.

    68 teve suas conquistas e seus prejuizos, hoje já atingindo os 40 anos de idade, isso se torna visível. No entanto, o conhecimento histórico é inevitável. E embora se transforme mais em objeto de fetiche, como mais um Guevara, do que em análise histórica-com-ação-no-presente, continuemos lendo os jovens de então, e os de agora, como você ….

Deixe um comentário