palavras estratégicas

Que o endurecimento retórico faça parte do jogo diplomático, nada de novo. De Tucídites a Putin sempre foi assim. Sem melar a pompa. O que Chavez curiosamente faz ao chamar a chanceler Angela Merkel de comparsa de Hitler, por exemplo, é ir um pouco além – transforma o bate-boca em instrumento de política externa. Estranho? Talvez. Mas, odeie-o ou ame-o, há tempos que o venezuelano busca se projetar na arena internacional a partir da verborragia. E muitas vezes isso deu certo. Tão certo que a Venezuela ganha - tanto no discurso dos chavistas, quanto no de seus inimigos mais viscerais - uma importância desproporcional ao seu peso geopolítico real. Deve ter sido isso que Merkel quis dizer ao afirmar que a Venezuela não representa a América Latina (fala que enfezou Chavez). Mas, de fato, a modesta Venezuela nunca ganhou tantos noticiários e jamais sonhou em simbolizar um pólo de exportação ideológica à América Latina. O barril de petróleo a $120 ajuda, mas não o faz sozinho, e até Simon Bolívar deve estar coçando a cuca.
Sexta-feira próxima, os líderes da União Européia se encontram com os de cá, do nosso subcontinente. Dá ultima vez, na cúpula Ibero-Americana, deu quebra-pau entre a nobreza do rei espanhol e a grosseria popularesca de Chavez – foi a vez do “por qué no te callas?!”. Agora, o presidente venezuelano não confirmou presença, mas já adiantou que, se for, não vai se calar. Para esquentar o clima, andou chamando o maior aliado de Bush por aqui, o colombiano Uribe, de “narcoparamilitar” e quase mandou a chanceler alemã ir para aquele lugar. Veja o vídeo.
Maio 14, 2008 em 5:30 pm
Todos sabemos que Chavez não é lá dos mais amados pela imprensa marrom. A notícia do mundoentrelinhas é informativa e boa; e bastante opinativa - como tem sido, admiravelmente, desde o início. Mas é por essas e outras que vai se percebendo um contorno ideológico do blog: muitas vezes ele é expressão da opinião da direita latinoamericana, no poder a 500 anos, e que se recusa a aceitar que, pela primeira vez na História, os povos da América Latina estão elegendo representantes que, embora turrões, são os primeiros a defender os interesses verdadeiramente populares e democráticos. A acusação de “populismo” contra Cahvez carece de sentido. É uma acusação puramente ideológica e nada informa.
Maio 15, 2008 em 7:53 pm
ERRATA Todos nós sabemos que Chavez não é lá dos mais amados pela imprensa marrom. A notícia do mundoentrelinhas é informativa e boa; e bastante opinativa - como todas têm sido, admiravelmente, desde o início. Mas é por essas e outras que vai se percebendo um contorno ideológico do blog: muitas vezes ele é expressão da opinião da direita latinoamericana, no poder a 500 anos, e que se recusa a aceitar que, pela primeira vez na História, os povos da América Latina estão elegendo representantes que, embora turrões, são os primeiros a defender os interesses verdadeiramente populares e democráticos. A acusação de “populismo” contra Cahvez, subliminar na notícia em questão, carece de sentido. É uma acusação puramente ideológica e nada informa. O mundoentrelinhas poderia oferecer uma reflexão sobre isso. Se mantiver o nível em que começou, será o melhor blog de RI que eu conheço.
Maio 16, 2008 em 5:13 am
Concordo que a verborragia chavista deu à Venezuela um espaço desproporcional à sua importância. Mas não sei se isso é necessariamente bom para os interesses de Caracas. Veja a Líbia do Coronel Kadhafi, que nos anos 1980 patrocinava todo e qualquer grupo terrorista anti-Israel e detinha um espaço internacional enorme para um pais que à época contava quatro ou cinco milhões de habitantes. O que o coronel conseguiu? Vinte anos de isolamento e sanções, que apenas recentemente terminaram.
A sorte do Chavez é que o petróleo nunca mais vai voltar aos valores de dez anos atrás, pois a produção mundial está beirando limites estruturais, a demanda continua a aumentar e ainda não existem alternativas globalmente viáveis. A chuva de petrodólares vai continuar na Venezuela. Mas aos poucos o país se torna um novo Bahrein, uma vítima da dutch disease, com a economia dependente demais de um único produto de exportação. A governança chavista parece funcionar hoje, mas é uma receita para o desastre a longo prazo.
Abraços e parabéns pelo blog!
Maio 16, 2008 em 3:57 pm
Opa Napoleão, que ótimo te ver por aqui!
Concordo contigo: não sei até que ponto a verborragia se sustenta em termos de inserção internacional real. A história costuma mostrar que não. Mas acho a comparação com o Kadhafi limitada por dois motivos principais: primeiro, o autocrata líbio sofria concorrência forte como pólo de exportação ideológico - o nacionalismo árabe - com países como Egito, Síria e Iraque (os vários nacionalismos árabes); segundo, o contexto de Guerra Fria e aquilo que o epíteto “terrorista” àquela época significava (11 de setembro nesse sentido foi revolucionário) dava uma margem de manobra, impensável hoje, ao Khadafi.
Preciso conversar com vc. Propostas indecentes…
Forte Abraço!
Maio 17, 2008 em 3:55 pm
Vitor,
Roberto, representante da direita latinoamericana, «no poder a 500 anos, e que se recusa a aceitar que, pela primeira vez na História, os povos da América Latina…»???
Acho que é um pouco demais.
Eu confesso que tenho simpatias por Chavez. Acho que ele é responsável por avanços socias fantásticos num país agudamente desigual - como, aliás, o Brasil - e também por trazer alguma luz à esquerda latinoamericano que ainda nao se recuperou da queda dos seus vários muros.
Mas temos que assumir que Chávez tem alguma coisa de populista e alguma coisa de verborrágico. Reduzir Chávez a um populista é ideológico e de direita. Mas preocupar-se com alguns de seus traços perigosos nao é mais do que lucidez. Por exemplo, duas questoes eminentemente «populistas» (lembremos, nao é um regime e nem um sistema, é um «estilo» de governo) me inquietam em Chavez: a dependencia de todo o seu governo para com a sua figura; e a nao institutcionalizaçao das grandes mudanças sociais. Claro que ele aprovou uma Constituiçao nova. Mas na América Latina, nao quer dizer muita coisa. Precisa-se investir em infra-estrutura. Isso, parece que ele nao tem feito.
Bom, o espaço é restrito e chega de escrever. Só acho que às vezes tachar o outro de «direita» é um artificio para evitar discutir os problemas e contradiçoes da propria esquerda.
Maio 19, 2008 em 3:05 am
Lucas, concordo plenamente com voce. Pequei por lubricidade da lingua, pra balanca ficar mais equilibrada, mas faco minhas as suas palavras.