Entusiasmado com a presença síria na conferência de Anápolis, que no final do ano passado debateu o conflito israelo-palestino com a participação de diversos países (o Brasil inclusive), perguntei ao correspondente em Roma do jornal israelense Haaretz, Menachem Gantz, sobre a possibilidade de Israel devolver as Colinas do Golã em troca de paz com a Síria. “Os israelenses que moram no Golã sabem que isso está muito, mas muito, longe”, foi a resposta. Gantz justificou sua fala pelo mirrado índice de popularidade que o governo de Ehud Olmert tem desde a guerra contra o Hezbollah, em julho de 2006. “Um governo fraco é simplesmente incapaz de fazer um compromisso dessa magnitude e uma aproximação israelense teria mais a ver com assuntos domésticos do que com uma verdadeira possibilidade de paz”.
Israel tomou há quarenta e um anos o Golã e agora, depois de um hiato de 8 anos - por coincidência ou não, o período em que Bush ocupou a Casa Branca -, volta à mesa de negociações com o governo de Bashar Al-Assad, o autocrata sírio, sob mediação turca. O improvável pôquer da negociação recomeça.
Israel olha suas cartas. A presença nessas montanhas significa uma vantagem estratégica num eventual conflito (ainda que muitos contestem essa idéia, dizendo que a posição foi importante nas guerras de 67 e 73, mas que hoje, na “era dos mísseis“, ela estaria militarmente obsoleta. Dada a tendência crescente de guerra assimétrica, é um ponto em aberto). A produção de vinho e de outros produtos da pauta de exportação israelense, como carne bovina, está concentrada nessas montanhas. 40% dos recursos hídricos de Israel passam por ali, inclusive a nascente do Rio Jordão e a principal fonte de abastecimento do Lago Tiberíades, caixa d´água do país. As cartas da mão israelense, portanto: importância militar, economia e o controle dos recursos hídricos.
Síria olha suas cartas. O Hamas, inimigo palestino número um de Israel e agora governo da Faixa de Gaza, tem apoio logístico e financeiro de Damasco. A recente guerra entre o Hezbollah, grupo educado pela inteligência síria na década de oitenta, contra Israel representou uma derrota humilhante à maior potência militar da região e o país aguarda a próxima guerra contra a milícia xiita. O principal aliado da Síria é o Irã, cujo programa nuclear rouba o sono de Israel, EUA e União Européia. As cartas da mão síria, portanto: Hamas, Hezbollah, Irã.
A fórmula “paz por terra” já é batida na região, vale lembrar. Ela foi usada no final da década de setenta para firmar a paz entre egípcios e israelenses, depois na década de noventa entre jordanianos e israelenses, para ser tentada – e sucessivamente abortada – entre palestinos e israelenses. Em quase trinta anos de fórmula na região, só foram concretizados efetivamente os acordos que implicavam um intercâmbio objetivo entre as duas partes interessadas. Em outras palavras, Anuar Sadat e Menachem Begin trocaram o reconhecimento oficial de Israel por parte do Cairo pela Península do Sinai, ocupada desde 1967 por israelenses. Fez-se a paz. Mesma coisa entre o rei Hussein da Jordânia e Rabin: reconhecimento oficial de Israel em nome da partilha do Rio Jordão. Fez-se a paz.
Em relação aos acordos entre palestinos e israelenses, de Oslo à Taba e Camp David, os elementos subjetivos entraram na jogada: a ANP de Yasser Arafat deveria “combater o terrorismo palestino” e Jerusalém, “lançar as bases para um Estado Palestino viável”. Os espaços em branco, os elementos subjetivos, foram os vilões. Arafat e Rabin trocaram apertos de mão sob o sorriso galante de Clinton e, já antes de acabar a década de noventa, estava claro que o líder palestino repassava verbas e armas a grupos terroristas e Israel construía novos assentamentos e check-points na Cisjordânia e Faixa de Gaza. Veio a segunda Intifada renovada, os poucos moderados de cada lado trupicaram de vez.
Se a lição dos demais acordos não for falha, a paz entre Israel e Síria só vingará caso prevaleçam as concessões objetivas. Nesse sentido, negociadores teriam que institucionalizar de alguma forma o fim do apoio sírio ao Hamas, ao Hezbollah e a quebra da aliança com o Irã – e hoje não existe, absolutamente, nenhum indicativo concreto que aponte para isso, a não ser o próprio encontro na Turquia. Aliás, recentemente autoridades sírias reafirmaram seu compromisso com a “resistência” e com Teerã. A falta de vontade e capacidade política israelense alimenta o círculo vicioso e o preço do compromisso com a Síria torna-se questionável pelos trabalhistas de Ehud Barak, evitável pelo Kadima de Ehud Olmert (que agora vive um escandalo de corrupção) e intolerável pelo Likud de Binyamin Netanyahu e à direita religiosa do país.
Israel não se comprometerá caso isso signifique uma ameaça, por mais remota que seja, ao seu abastecimento hídrico. Portanto uma devolução total, retornando às fronteiras pré-Guerra dos Seis Dias, é altamente improvável. A Síria não dá sinais de aproximação ao Ocidente, única possibilidade para o estabelecimento de um mínimo consenso entre as partes – e boa parte do Ocidente não quer se aproximar da Síria, vide os discursos dos candidatos à sucessão americana (só Obama coloca timidamente a possibilidade).
A História dos acordos de paz e as cartas em jogo nesse imrpovável acordo entre Israel e Síria dão razão à descrença inicial do jornalista israelense. Mas não custa torcer. Afinal, como o Oriente Médio já surpreendeu antes, pode surpreender novamente. Esperemos que para o bem.
(Veja a cronologia do conflito segundo o Financial Times. No Carnegie, uma análise mais otimista.)
Bela matéria Robi!
Sugiro o texto de Eric Rouleau, no Le Monde Diplomatique de maio, “Israel face à sua história”.
Mais um texto desse excelente blog de notícias/comentários de política internacional.
Mas também é mais um texto com a visão realpolitiks do nosso sábio blogueiro. Nada contra essa visão realista e não ideológica, sobretudo num Oriente Médio onde nacionalismos, comunismo e até mesmo “democratismo” geraram tanta barbarie. Vale a pena, entretanto, apenas comentar que não é só de bastidores do poder que vivem as relações entres os países desta matéria. Há pressões populares, legitimação de poder e mesmo um sistema internacional que também contribuem para o impasse entre sírios e israelenses. Do lado árabe, é inquestionável a necessidade da Síria, uma autocracia de quase meio século, legitimar-se no poder através da sua posição anti-Israel. Assim como na Palestina, o Hamas tem sua importância popular através dos seus programas sociais que o levaram ao poder. Já para israelenses, a sua posição hegemonia regional militar/econômica, torna possível a sua indisposição para conversas multilaterais e a sua liberdade para a definição do que é um grupo puramente terrorista.
Texto muito bom, Roberto. Eu concordo inteiramente.
Você sabe, a aliança entre Damasco e Teerã é totalmente anti-natural. A Siria é uma ditadura militar bananeira com maioria arabe e sunita; o Irã é uma teocracia civil com maioria persa e xiita, embora seja um pais multiétnico. Eles são aliados apenas por causa de um inimigo comum, Israel. Mas a Siria pode perfeitamente mudar de lado, como o Egito, ou pelo menos adotar a neutralidade, como a Jordânia, caso o Assad (um oportunista) ache que isso valeria a pena. Seria uma enorme derrota para o Irã, que com os fiascos no Iraque e no Afeganistão esta mais forte a cada dia.
Israel sairia ganhando nessa troca com a Siria. Mas isso é politicamente inviavel atualmente, como você bem disse. A solução é acordar o velho Sharon do coma! :p
Concordo com o Gabriel: uma aproximação com Israel seria politicamente muito cara também para o Assad. Mas isso seria compensado pela recuperação do Golã depois de 40 anos, acho. De qualquer modo, a policia secreta é a unica coisa que funciona bem na Siria, e a população não teria muita chance de se manifestar a favor ou contra.
Quando se fala em aproximação Israel – Palestina, fala-se também em entendimento entre 2 povos, o judeu e o palestino.
Os primeiros vivem com a presença de um medo constante, seja pelos atentados costumeiros, seja pela propaganda daqueles que se fortalecem com o medo. Já os palestinos vivem uma pátria que nasceu depois da perda do seu território. Vivem apertados em campos de refugiados em países não tão generosos com eles, ou experimentam uma vida em Israel com todos os males da discriminação.
Para polemizar: será que a melhor saída para esses dois povos é um entendimento entre um ditador sírio e um presidente israelense enfraquecido?
Bob,
queria deixar aqui meu singelo apreço pelos seus dizeres. O texto foi muito bem escrito, está coeso e apresenta informações / análise com bastante qualidade.
Abraço
gostaria de saber mais ou menos como descrever em uma pequena frase a primeira foto do site?
desde ja obrigada, e parabéns!