Está novamente vetado o porte do véu islâmico nas universidades da Turquia. Pode parecer estranho num país onde cerca de 99,8% da população é muçulmana (sunita), mas a Suprema Corte turca acabou com a lei, formulada pela coalizão governista do partido islâmico AKP, que desde 2002 liberava o véu às muçulmanas praticantes dentro da sala de aula.
O argumento à interdição é direto: véu em lugar público atenta ao princípio da laicidade. E a sacra laicidade na Turquia tem a ver com a identidade mais fundamental do país, fundado sobre as cinzas do império otomano por Kemal Ata Türc, o nacionalista que obrigou turcos a trocarem as batas tradicionais por terno e gravata, ainda no começo do século passado. Portanto a “lei do véu” de banal não tem nada, por ali.
Conforme os ensinamentos dos franceses jacobinistas, a Nação (com N maiúsculo) foi construída em oposição à tradição religiosa na Turquia. Mas o AKP – abençoado pelos EUA por representar um “partido democrático e islâmico” – bate o pé dizendo que o véu faz parte da esfera privada do cidadão e, justamente no país com 99,8% de maometanos, o veto é uma aberração diante da realidade social. O debate, difícil de ser transposto para nossos tristes trópicos, ainda é motivo de pancadaria na França, país que baixou decreto abolindo o lenço para meninas (e todos os chamados “símbolos religiosos ostensivos”, como kipás e grandes crucifixos) nas escolas públicas em 2003.

Na Turquia não tem sentido, mas eles tão dominando a Europa. Se fosse francês militaria pela Marseillaise, contra o fundamentalismo!
Não consigo entender os motivos reais em tais atos.
As escolhas pessoais, de cunho político ao religioso, e suas expressões têm de ser garantidas por lei nos lares, espaços privados e públicos. Restringir as manifestações de uma cultura, usando como desculpa a laicidade, é camuflar de políticamente correta uma atitude autoritária e preconceituosa.
Viva os véus! as circuncisões! as tatuagens! a torá, a bíblia, os ogans, o universo em desencanto!Viva deus e o capeta!!
Que o mundo viva colorido e barulhento de manifestações culturais!
Não ao branco azedo de um mundo frio e medroso!
Amém
Ser repórter é às vezes a mais confortável das tarefas: em algumas situaçoes, é muito mais facil dar os dois lados do assunto do que tomar o partido de um deles. Essa é uma dessas situaçoes. O muro é bastante largo. Mas assumir os riscos, tomar um lado e polarizar é sempre mais interessante.
Nesse caso, acho que nao concordo com o Pedro (acho que é o Pedro que estou pensando). Viva os véus, quipás, crucifixos e afins. Em casa.
Pode parecer normal a Igreja e as questoes religiosas estarem atualmente fora das universidades e dos orgaos públicos. Mas nao é. Retirar a religiao da gestao publica e das universidades foi uma enorme conquista republicana (palavra horrível nos dias de hoje). Tolerância religiosa irrestrita na sociedade. Nos assuntos publicos e na transmissao do conhecimento, laicidade intransigente.
Principalmente na Turquia, república democrática e secular onde o fundamenatalismo religioso apresenta tendencias crescentes. O que os números fornecidos no post escondem, porém, é que dos 98% de muçulmanos da Turquia, uma boa maioria sao islamicos como o Robi é judeu, por exemplo. Para esses, os véus e afins nao têm lugar no espaço público (fato corroborado pela decisao judicial, que veio da suprema corte Turca e nao foi imposta de fora por ninguém).
Portanto, a probiçao do véu nao ataca a tolerancia religiosa, mas a intolerância própria ao fundamentalismo. E, para mim, fundamentalismo religioso em expansao é o principal mal de nossa época.
Mas queria que o senhor blogueiro saísse um pouco do muro e nos desse sua opiniao. Gostaria de ouvi-la.
Lukita! como anda rapaz!?
Bom ler suas palavras. Tomei a liberdade de discordar de ti (e do blogueiro, provavelmente) no que diz respeito a este delicado tema.
Não consigo compreender, Lukita, qual a verdadeira intenção de uma medida que restringe liberdades individuais que por muito tempo demoraram a ser conquistadas. Parece-me invertido o debate. É necessária uma medida que amplie os direitos político-culturais e que assegure suas manifestações em todas as esferas dos espaços públicos. O Estado, ou a Republica, para agradar os ouvidos, tem o dever garantir a pluralidade cultural, sobretudo em uma Universidade, onde as trocas de conhecimentos e experiências deveriam estar à serviço de uma democrática produção científica . O Estado é laico, seus espaços plurais. Cada cidadão, no meu modo de ver, carrega, inevitavelmente, em seu corpo suas heranças culturais ( além de escolhas políticas, bla bla bla), tentar apagá-las é pintar de branco uma paisagem colorida caracterizada pela diversidade.
Não consigo ver sentido em encurralar nos espaços privados as manifestações religiosas. Tal medida restringe o contato entre diferentes culturas favorecendo, a médio prazo, uma sociedade burra e preconceituosa, que ficará elocubrando, em sues pequenos guetos, sobre as bizarrices de uma ou outra religião.
Espero estar errado.
Um abraço grande, Pedro.
Estive em uma palestra em Salvador de Luc Ferry. (Ele foi quem lançou a idéia de proibir o símbolos religiosos na escolas públicas francesas). Como de esperado, logo depois do seu discurso surgiu a pergunta do porquê de tal medida. Disse que os símbolos entre os alunos estava causando certas intrigas religiosas, formação de certos grupinhos e agressões- uma guerra de brincadeira. Os adultos que tem que decidir pelas crianças. Portanto, proibiu e disse que melhorou. Não acompanhei o caso, foi o que ele disse e achei coerente. Entretanto, nas universidades talvez seja um exagero.É díficil entender como um fundamentalista frequenta universidades com o método científico laico e tão desmistificador. Mas se quiser assistir e colaborar com a aula com seu véu qual é o problema? Contudo, que também, não fique cagando regras e tentando catequizar a todos- como muitos evangélicos hoje em dia fazem em todos os lugares. Pois isso prejudicaria a o andamento da aula. Isso no ambienta da sala de aula. Fora, no espaço universidade, não teria problema. É só dizer não, eu sou filho do satã, que eles desistem. Aí cada universidade irá poder julgar o conduta de seus alunos. Proibir é o problema, pois ao visar acabar com o fundamentalismo proibindo seus símbolos de manifesto ai se cria mais fudamentalismo.
“Devemos ser intolerantes com a intolerância”. Isto é uma falácia? Não sei, mas suspeito que não.
há um trecho do texto redigido( muito bom!) pelo Roberto que diz tudo:
– “sacra laicidade” lembra algo como “deusa razão”; “identidade fundamental”? não há um certa confusão entre o Estado turco e a sociedade que tem uma história milenar?; o “nacionalista que obrigou”, sem comentários.
Mais uma vez, a mesma questão; a roda da história sempre volta para o mesmo lugar. Quantos crimes já foram cometidos em nome do “razoável”? Aviso aos Curdos: o negócio na Turquia só tende a piorar.
Faço eco ao texto do roberto: a tática é jacobina, e lá no horizonte, o sol pode não se levantar amanhã.