
Thurman, Makelele, Benzema, Abidal, Toulalan, Vieira, Malouda. São esses alguns dos principais nomes dos Bleus, a seleção francesa de futebol, que estreou hoje na Eurocopa. Nada de du Bois, Leclerque ou Pinot. No país de Sarkozy, que agora se filia ao clube de Berlusconi por leis mais severas contra a imigração no âmbito da UE, quase nenhum craque é, como dizem em Paris, “français de souche” ou “franco-français” – um descendente puro dos gauleses, celtas e afins. Alguns explicam o fenômeno pela falta de oportunidades a imigrantes e seus descendentes (coincidência com os boleiros daqui?). Há, proporcionalmente, poucos advogados, médicos, empresários, intelectuais e políticos com sobrenomes estranhos na terra dos franceses. E, se comparada a um país como a Inglaterra, onde a imigração é até mais intensa, a França tem uma equipe com mais Makeleles, Benzemas e Abidals – não por coincidência, no Reino Unido, é mais fácil ver um imigrante bem sucedido do que no país de Zidane (por sinal, um argelino).
Creditar à direita, de modo geral, o racismo francês é desconhecer a profundidade do problema. Ao próprio Sarkozy (que tem um sobrenome húngaro), o complemento “racista” é – no mínimo – inapropriado. Dentre os ministros-chave de seu gabinete mão-de-ferro contra a imigração, está Rachida Dati, a primeira descendente de magrebinos a alcançar um cargo de alto-escalão no governo. Uma mulher negra senegalesa, Rama Yade, foi apontada para uma das funções mais prestigiadas da chancelaria francesa, a secretaria para assuntos internacionais e Direitos Humanos. Por mais que se discorde do “neoconservador com passaporte francês”, como foi chamado pela direita americana, ele tem o governo com o maior número de imigrantes da história da França.
Claro que o partido de extrema direita, o Front National de Jean-Marie Le Pen, oposição ao governo, assume para si o discurso oficial contra o fenótipo multicolorido dos jogadores da seleção. Numa de suas mais famosas falas incendiárias, Le Pen defendeu que “a sociedade francesa não se sente representada por uma seleção de futebol dessas”. Mas dividir, como fazem alguns por aqui, a cena política francesa entre direita supostamente mais próxima ao racismo, versus esquerda guardiã do espírito republicano que transcende “la couleur de la peau” (a cor da pele) é pequenez intelectual.
No fim do ano passado, o presidente do Partido Socialista da região de Languedoc-Roussillon, Georges Frêche, deixou escapar sua reprovação pela existência de “nove negões entre os onze jogadores da seleção”. Depois completou: “tenho vergonha desse país, daqui a pouco haverá onze negões”. É verdade que Frêche – com seu sobrenome ultra-afrancesado – está longe de representar a opinião majoritária do PS francês. Pelo contrário, figuras de peso do partido fizeram questão de condenar publicamente o racista de esquerda. Mas, apesar do fuzuê provocado por alguns militantes, o político não foi afastado do PS.
Hoje a França mantém tropas em vários países ao redor do mundo, como Afeganistão e Chade. O percentual de imigrantes e descendentes de imigrantes nas Forças Armadas é desproporcionalmente alto, como nos Bleus; no front internacional, a França também está sobrerepresentada pelos Makeleles e Abidals da vida. Por que será que ninguém reclama deles?
caro Roberto
concordo integralmente com sua afirmação de que creditar à direita o racismo frances é equivocado, mas tamém é equivocado deduzir o caráter de uma política de governo a partir da constatação da presença de pesssoas de outra nacionalidade e/ou raça(?) o racismo é uma atitute ( veja Sarte em Reflexões sobre o racismo)
abraços e parabéns pelo blog
Estamos assistindo a um acirramento do preconceito racial e da xenofobia na Europa. Vamos ver até aonde isso vai. parabéns novamente pelo excelente blog.
…. e aqui no Brasil não me parece tão longe este debate …
Aos negros tupiniquins está vetada também a chance de nos representar na política, no jornalismo ou nas artes plástica e visuais. A eles está reservado o papel heróico de vestir uma camisa de futebol. Há 500 anos.
Vaijando frequentemente pela Europa, fico com a impressão de que o “racismo” não pode sempre ser confundido com a “xenofobia”. Conheci franceses e espanhóis que não são absolutamente racistas, mas que se irritam com as hordas de imigrantes ilegais, principalmente da África sub-sahariana, que lotam determinadas áreas de suas cidades, com emprego e comércio informais e com a maior criminalidade que, pela própria condição social, se associa a este grupo. Em Madrid, perto da estação de Antocha, ouvi de um professor universitário (sobre o qual não tenho maiores suspeitas de racismo) dizer que a cidade não aguenta mais o influxo de tantos africanos vendendo bugigangas e drogas, e que ele é contra uma política mais livre de imigração.
É claro que o problema é maior do que racismo e xenofobia: enquanto as nações ricas não tomarem medidas para sanar os problemas que levam os pobres a imigrarem, o problema vai continuar .
A imigração é consequência, é efeito de uma causa, no caso da Europa a causa é o colonialismo europeu, especialmente o Neocolonialismo do século XIX, que junto com o Imperialismo fez com que os europeus subjulgasem economicamente (e muitas vezes politicamente também) povos estrangeiros.
Porém o colonialismo não foi eterno, veio as guerras mundiais, a europa ficou quebrada financeiramente, paralelamente surgiram os ideais de Direitos Humanos…tornou-se inviável e amoral manter essas colônias, só que os anos de presença européia em outros países deixaram seu legado, um grande “approach” entre colonizados e colonizadore, isso tudo em parte gerou a intensificação da imigração para os países europeus, lógico que esse não é a única justificativa para imigração mas acredito, é a principal.
Agora revoltam-se europeus pelo efeito que eles mesmo causaram…contraditório, não?
todos tem direitos de ir e vim desde que respeite o país para onde se estar indo.