A edição dominical da Folha de São Paulo traz uma ótima entrevista com o jornalista Jeremy Scahill, autor do principal livro sobre a empresa de mercenários Blackwater. Entre os méritos do texto, está uma denúncia que merece atenção: sociedades de mercenários - ou, como preferem os lobistas de Washington, “agentes privados de segurança” – recrutam e atuam, cada vez mais, na América Latina. (Recentemente, aliás, o Estadão divulgou a venda de um avião de ataque Supertucano, da Embraer, à Blackwater). Outra informação relevante que Scahill levanta é que, hoje, há mais agentes privados do que soldados americanos no Iraque - 180 mil contra 150 mil.
Um dos principais elementos que motiva a contratação desses soldados privados é a efetiva ausência de jurisdição sobre suas ações. Como o massacre de Haditha - quando 17 civis iraquianos foram assassinados, segundo o FBI - mostrou, mercenários não respondem de fato nem às leis americanas, nem às leis locais. Estão, na prática, num vazio jurídico.
Único senão da matéria da Folha: há uma confusão entre as idéias de força e poder. Argüindo sobre o papel dos mercenários na chamada “Guerra ao Terror”, Scahill deixa escapar que “[George W. Bush] não precisa mais formar uma coalizão com governos estrangeiros, nem lidar com a opinião pública internacional hostil. Pode pagar por uma coalizão de corporações, que vão contratar mercenários, inclusive em países cujos governos se opõem à guerra”. Será? Seriam os EUA capazes de anular, pela força extremada, a necessidade de legitimar suas ações com o apoio de aliados? Ou, na contramão, seria a força extremada capaz, sozinha, de se auto-legitimar? Não. E a própria tragédia iraquiana é um exemplo disso. Por mais que os EUA possam - com ou sem mercenários - ter uma força desproporcional, inimaginável, sem legitimidade ela não é capaz de se transformar em poder, em “capacidade de submeter o outro a minha vontade”, segundo a definição clássica. Ao que tudo indica, se os EUA tivessem o dobro de mercenários e soldados no Iraque, o país ainda não se tornaria uma “vitrine da democracia” para o Oriente Médio, finalidade inicial da ação política da Casa Branca. A compra de soldados pode ajudar, mas sozinha ela não ganha guerras.
(O blog já havia tocado no assunto)

Acho esse tema quente!
As implicações teóricas e práticas desse tipo de organização são sem precedentes…
Acho que ainda vamos falar muito nessa gente, Rob.
Beijos.