
O assunto não ganhou uma linha sequer nos jornais daqui, mas está longe de ser desprezível. A França lançou no último dia 17 o seu “Livro Branco“, um imenso memorando que detalha, tim-tim por tim-tim, quais serão suas prioridades estratégicas para os próximos 15 anos. O que chamou a atenção dos analistas foi a reorientação da potência francesa: a confiar no documento e na insistente retórica de Sarkozy, a França quer mudar significativamente sua relação com o mundo.
Primeiro, a maior ameaça prevista não é mais uma invasão maciça de seu território por uma potência estrangeira, o grande medo francês desde os tempos de Asterix. Paris entrou na moda da “Guerra ao Terror”, elencou o “terrorismo” (leia-se, a ação de grupos radicais islâmicos) como principal risco à segurança de la Patrie. Segundo, há uma transposição geográfica dos interesses franceses do Norte da África, seu antigo quintal colonial, para a Ásia, sobretudo o Oriente Médio. Mas, mesmo no mundo árabe-muçulmano, a França parece ter abandonado a posição pró-árabe, tradicional do gaullismo, em benefício de uma aproximação com Israel. A divulgação do Livro Branco aconteceu no momento em que a UE dá alguns passos inéditos na direção do Estado judeu e, dias depois, Sarkozy desembarcou em Tel Aviv (Lluís Bassets escreveu um ótimo post sobre o assunto). Se somada à volta da França à mais alta instância da OTAN (abandonada por De Gaulle), Paris parece ter em vista o estreitamento da relação com Washington – e, na esteira, Londres.
Esmiuçando o documento, fica uma lição simples. Franceses querem manter seu status de potência e sabem que isso só pode ser feito a partir de uma reconfiguração de sua capacidade estratégica. Para isso, o documento não quis “limitar as questões de segurança nacional às Forças Armadas”, incorporando também esferas como a política econômica do país e a “política doméstica”. De novo, na moda da “Guerra ao Terror”, reitera-se a noção de que defesa e segurança, exército e polícia, não são mais tão separáveis. As linhas divisórias se borram em nome da reverenciada “segurança nacional”. O risco evidente, como latino-americanos sabem bem, é que borrar demais as linhas em nome da segurança máxima do Estado pode envolver custos que uma democracia se prepõe a evitar.
Podem escrever quantos livros quiserem, mas a verdade é que a França já não é potência há muito tempo.
a frança devia contentar-se em ter e ser o maior museu do mundo.o que, de fato, não é pouca coisa.