
Podemos até ser incapazes de harmonizar tarifas básicas, dos frangos aos sapatos, mas – babem europeus – a reunião do Mercosul em Tucumán, Argentina, pariu uma posição política comum em forma de vitrine. Enquanto a UE digeria o não irlandês ao tratado lisbonense, que concederia uma identidade mais política ao bloco, nossos chefes de Estado bradavam em coro contra as inaceitáveis políticas imigratórias recém aprovadas no velho continente. Lula soltava o verbo, Chávez concordava balangando a cabeça, um sorriso de regozijo brotava dos recauchutados lábios de Cristina Kirschner. Contra a chocante política anti-imigração da UE, que autoriza a detenção até de crianças, unimo-nos.
Claro que o triunfalismo do Mercosul é, no mínimo, irônico. Primeiro que, por ser dirigido à União Européia, ele parece comportar certa dose de rancor edipiano. Nossa União do lado de cá (ainda que só no estágio de “Merco”) foi feita sob a influencia incontestável da União do lado de lá. O pai do Mercosul não é nem a Argentina, nem o Brasil – é a ideologia “dos blocos”, irradiada desde a Europa com força renovada a partir do fim da Guerra Fria. E vontade de superação do pai pode produzir coisas extraordinárias, como dizem psicanalistas. Dessa vez, além da justa reclamação contra os subsídios, ela aglutinou em torno de uma posição, marcadamente política, os países membros. No momento em que a política comum do pai está em frangalhos, parecemos dar um passo à frente, unidos.
Mas a ironia psicanalítica não pára no complexo de Édipo da relação Mercosul-UE. A reunião de Tucumán virou uma espécie de divã aos nossos chefes de Estado, um lugar para onde direcionar dramas e angustias do contraditório mundo em que vivemos. Chávez reclamou do perigo de fragmentação na Bolívia, em solidariedade total a Evo, dizendo que “a Bolívia está sendo atacada por dentro”. De fato é preocupante. Cristina deixou a presidência do Mercosul fazendo um paralelo entre os locautes argentinos, que enfrenta atualmente, e a crise de alimentos que desestabilizou Allende no Chile, em 1973. Na onda, Lula condenou a 4ª Frota da Marinha Americana, que deverá voltar a vigiar (e punir?) pelos mares latino-americanos. “Qual é a razão para que os EUA nos enviem essa frota? Nunca vão admitir que é pelos recursos naturais da região”.
Ao cabo, vale lembrar, os “chefes” estão cobertos de razão. A lei aprovada pela UE criminaliza os imigrantes e é política e moralmente inaceitável – como vários partidos do parlamento europeu e ONG´s locais atestam. Verdade também que questões antes reservadas ao âmbito doméstico, intra-soberanas, têm papel crescente nas instituições multilaterais – seria bom se o Mercosul tivesse uma vocação estabilizadora. Mas a anemia institucional e a potência das pessoas (um coquetel perigoso, como Montesquieu defendeu há dois séculos atrás) deixam a coisa com um aspecto caricatural.
A contrução de blocos parte do princípio da união entre pares que compartilham os mesmos problemas e objeivos comuns na época em curso. Para os países da Europa isso se potencializou depois da segunda guerra mundial devido principalmente ao fato da catastrofe socio-econômica que viveram. Agora os temas são agricultuara, subsídios, e imigração. Como eles estão num estágio mais avançado de união, cabe aos países sulaméricanos agilizarem o processo de integração afim de terem mais peso ( força) para defender suas proposições.
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