
Se nenhum contratempo aparecer, o Brasil acabou de faturar alguns pontos a mais em sua histórica e incansável luta por algum tipo de liderança regional real. Em viagem à Colômbia, Lula foi agraciado com a notícia de que Uribe – finalmente – aceitou a formação de um Conselho Sul-Americano de Defesa, talvez o mais importante braço da recém-nascida Unasul (União de Nações Sul-Americanas). Quando a nova união sub-hemisférica foi formalizada, em maio desse ano, Bogotá havia condicionado sua participação no tal conselho a uma condenação uníssona dos membros – entre eles, países como Venezuela e Bolívia – às Farc. Mas à época, governos ditos bolivarianos não gostaram da idéia de condenar os companheiros do lado de lá da fronteira colombiana. Passados três meses, com a exigência do governo Uribe inalterada, a conjuntura política da região parece ter abalado a conveniência do apoio, tácito ou explícito, de países ao grupo guerrilheiro. Após o relaxamento de Ingrid Betancourt e a derrocada da cúpula das Farc (não necessariamente nesta ordem), agora está fora de moda apoiar a guerrilha, seja lá qual for a afinidade ideológica existente.
A criação do Conselho Sul-Americano de Defesa se apresenta como uma vitória da política externa do governo Lula por (tentar) consolidar um aparato jurídico regional no qual a presença de Washington seja menos marcante. Ao contrário da OEA, onde os EUA têm uma espécie de hegemonia, o conselho que está para nascer seria um fórum de segurança e defesa exclusivo dos próprios países da região. E, nesse contexto, as portas à liderança do Brasil – por peso demográfico, econômico, geográfico e, conseqüentemente, político – estariam escancaradas. O risco de o fórum ser natimorto é grande, ainda mais se for convertido em palanque de lideranças carismáticas; contudo o passo necessário para se criar um lugar de proeminência da diplomacia brasileira no campo cabal das relações internacionais, o da violência, foi dado – veremos os resultados.
Diante da novidade, vale notar o caráter híbrido da relação Brasil-EUA. De um lado, o governo Lula já representa há tempos um forte período de afinidade com Washington a ficar marcado nos livros de história. Ao contrário do que os americanos temiam, não houve nenhuma desavença relevante entre as diretrizes de Bush à região e a conduta do Itamaraty nos últimos seis anos. Celso Amorim faz questão de se dirigir à Condoleezza Rice por “Condi” – e intimidades na política são sempre simbólicas. Mas de outro lado, o Brasil condena de maneira enfática a recém-criada 4ª Frota da marinha americana, cria um organismo para deliberadamente marginalizar a presença americana no subcontinente e sublinha a necessidade de uma ordem internacional multipolar, ou seja, na qual o poder americano, sozinho, seja menos decisivo. Instalada entre uma amizade cultivada e a noção de que uma liderança brasileira passa pela diminuição da presença americana na América do Sul, a relação entre os dois países é híbrida.
A falta de uma identidade política marcada, patente, concede ao Brasil uma margem de manobra notável. Mas a característica não é absolutamente privilégio de Lula – é um pilar central na diplomacia brasileira desde os tempos do Barão do Rio Branco. Afinal, a história da política externa a partir do início do século 20 passou repetidas vezes pela obediência a interesses estratégicos objetivos, pretensamente a-ideológicos, em benefício da consolidação da influência brasileira no continente. A roupagem pode até ser outra, mas no fundo o esforço é secular; trata-se de uma continuidade.
Na versão 2.8 da diretriz diplomática, o governo pode sem problemas fechar mais um acordo entre a Petrobrás e a PDVSA para investir na Bolívia e, logo em seguida, embarcar para a Colômbia para serrar parcerias diversas, entre elas na área da indústria bélica. Ainda que exista uma clara divisão de projetos para o futuro da região, transcendemos os antagonismos porque não nos filiamos formalmente a nada.
Obviamente que a opinião sabonete, que sempre escapa aos apertões, tem um custo forte. Recentemente, no caso dos reféns colombianos – a maior inflamação em termos de segurança na região – a ambigüidade do Brasil custou sua participação nas negociações. Não condenamos as Farc, não rechaçamos a política de força de Uribe e, esperando sermos convidados a intermediar, ficamos de fora. Prudência excessiva virou em cima do murismo.
O duro, portanto, é saber calcular quando a ambigüidade rende ganhos inequívocos. Ao que tudo indica, com o Conselho de Defesa pode render.
É Robi,
parece que a onda bolivariana vem tomando uma forma interessante nesses últimos tempos. E o comunismo clássico, de palanque, que tudo indicava que seria o discurso dominante no hemisfério sul, está sendo substituído por um discurso, pelo menos da boca pra fora, de integração continental. Acho importante alguns movimentos, como a interligação de infraestruturas e de políticas. O problema, na minha opinião, continuam sendo dois. O primeiro, que os países não se conhecem bem para se entenderem. Ou você acha que é por acaso que nas aulas de história do colégio temos que decorar todos os reis da inglaterra e os presidentes dos EUA, mas não sabemos sequer uma vírgula sobre a guerra entre Peru e Chile ou a formação da Argentina?
O outro problema para esta integração, que você mesmo cita no seu artigo, é a potência adormecida EUA. Em ano de eleição e recessão, as atenções lá não parecem extremamente voltadas ao nosso frágil continente. Mas quando este gigante perceber que podem estar influenciando sua hegemonia, tenho certeza que alguns baldes de água fria virão.
Quanto às FARC, parece que estão diminuindo de importância, mas continuam como grande pedra no spato, principalmente do governo da Colômbia, não mais como modelo político, mas como grupo organizado de sequestro e narcotráfico.