Quando a porta do elevador do edifício de Anna Politkovskaya, em Moscou, se abriu, quatro tiros esperavam a jornalista. Foram três no peito e um na testa, todos à queima-roupa, sem chances de sobrevivência. Uma câmera de vigilância filmou de relance o assassino, que saía do prédio vestindo um boné branco.
Passados dois anos, começa o julgamento de seu caso.
Crítica feroz das atrocidades que as Forças Armadas da Rússia cometiam na região separatista da Chechênia, Politkovskaya não era bem quista nos círculos do poder em Moscou. Não gostavam dela também os poderosos aliados chechenos de Vladmir Putin, entre eles Ramzan Kadyrov, presidente da turbulenta província. A jornalista espezinhava diretamente Kadyrov, a quem chamava de ”um covarde armado até os dentes, cercado de guarda-costas”.
Essas perigosas inimizades, cultivadas durante toda sua vida de (primeiro) militante e (depois) jornalista, são a resposta de seu assassinato – conclusão óbvia. Resta saber qual poderoso mandou matá-la.
Três homens, dois chechenos e um russo acusados de vigiar a vítima, agora sentam no banco dos réus. A cadeira do mandante do crime, porém, continua vazia. Autoridades ainda colocaram o processo em uma corte militar, por considerar que boa parte das provas envolvidas são de “natureza sigilosa”.
Para deixar a história ainda mais dramática, hoje a advogada de Politkovskaya disse ter sido vítima de uma tentativa de envenenamento – prática recorrente dos agentes da inteligência russa. Ela, que vive em Estrasburgo, encontrou em seu carro grandes quantidades de mercúrio, substância que pode atacar o pulmão, rins, coração, cérebro e todo o sistema nervoso levando à morte. Como estórias de espionagem e envenenamento rendem “ótimas” notícias aos jornais, fica o risco de o julgamento do caso, uma das maiores provas da insegurança e ausência do estado de direito na Rússia, ser eclipsado pelo novo affaire. Seria uma pena.
[...] 23, 2008 por roberto simon Continuidade da estória de Politkovskaia: ao que tudo indica, sua advogada, Karina Moskalenko, não foi envenenada. O mercúrio em alta [...]