
(matéria publicada no Estadão, 27/2)
Saída do Iraque permitirá recuo de gasto com guerras, dizem especialistas
Roberto Simon
Parcialmente engessado por decisões tomadas em 2008, ainda no governo George W. Bush, o orçamento de 2009 para operações no Afeganistão e Iraque – que prevê um adicional de US$ 75,5 bilhões, anunciado ontem pelo presidente Barack Obama – representa uma exceção na nova estratégia da Casa Branca para financiar suas guerras. Segundo especialistas, a chave para entender a nova política orçamentária do Pentágono está no ano fiscal de 2010: é nele que os EUA, saindo do Iraque, começarão a reverter o aumento astronômico das cifras militares implementado por Bush.
Para Lawrence Korb, do instituto de pesquisa Center for American Progress, de Washington, a meta de reduzir o gasto com guerras de US$ 215 bilhões para US$ 130 bilhões entre 2009 e 2010 é “realista e factível”. Parte da explicação dessa economia no médio e longo prazos estaria na transferência de tropas do front iraquiano, que custa mensalmente cerca de US$ 11 bilhões, para o afegão, onde o gasto não passa de US$ 2 bilhões ao mês.
Dois motivos fariam a guerra no Afeganistão ser mais barata que a campanha no Iraque, afirma Korb. Primeiro, somando os adicionais 17 mil soldados prometidos por Obama, os EUA terão em breve 56 mil homens no Afeganistão. No Iraque, são atualmente quase 140 mil. Ainda, o custo da guerra afegã é em parte dividido com países-membros da Otan. “No Iraque, porém, pagamos a conta sozinhos”, explica o especialista.
“A grande mensagem por trás do anúncio de ontem é que, a partir de 2010, esse orçamento voltará aos patamares de antes da era Bush. Nos últimos oito anos o gasto com operações militares ao redor do mundo praticamente dobrou”, diz Korb.
CUSTO DA NOVA ESTRATÉGIA
O processo de transferência de parte dos combatentes do Golfo Pérsico para o sul da Ásia aumentará o gasto imediato do Pentágono, o que levou Obama a anunciar ontem o aumento do orçamento de 2009 para as operações militares americanas. “O presidente está cumprindo uma promessa de campanha ao transferir recursos para o Afeganistão”, afirma Paul Pillar, veterano da CIA e professor da Universidade Georgetown. Segundo o especialista, os novos 17 mil soldados seriam “apenas parte de uma nova estratégia de Washington para reverter o aumento da violência no Afeganistão” – alteração que, inevitavelmente, exigirá um reajuste orçamentário.
A retirada do Iraque e a redução do gasto com a reconstrução do país manteriam recursos nos cofres do Pentágono. No entanto, a saída total só acontecerá em agosto de 2010, segundo o New York Times. Em 2009, Obama ainda estará diante de duas guerras.