
Um debate bem interessante surgiu nas páginas, reais e virtuais, da revista Foreign Policy. O repórter Robert Kaplan, conhecido por viajar o mundo produzindo ótimos textos e polêmicas, fez renascer uma velha disputa acerca do papel “determinante” da geografia, do território, na história da humanidade. No artigo “The Revenge of Geography”, ele defende que o tal mundo no qual as idéias acabaram com fronteiras, reduziram espaços e limaram territórios – percepção hegemônica a partir do fim da Guerra Fria – não só é exagerado, como é absolutamente irreal. E esse mundo ilusório esconderia o papel fundamental que o conhecimento geográfico, estrito senso, tem. Diante do diagnóstico, Kaplan propõe um remédio polêmico: a volta dos geógrafos da era Vitoriana, como Halford Mackinder, que embasavam a expansão do império britânico com sua ciência. Segundo o jornalista, como previu Mackinder há dois séculos, a Eurásia continua sendo o palco principal da política internacional na era unipolar norte-americana. Sem conhecê-la, não se pode lutar no Afeganistão, Paquistão, Iraque, conter o avanço Russo, da China, atrair a Índia, etc.
Claro que o artigo, com uma defesa implícita de um teórico do imperialismo, causou furor. Sete especialistas – historiadores, geógrafos, jornalistas e até o principal estudioso de Mackinder – fizeram contra-argumentos, alguns muito bons, outros com ataques pessoais a Kaplan. A Foreign Policy publicou tudo em seu site, com um link para uma tréplica do autor do primeiro texto.
Opinião do mundoentrelinhas: o artigo inicial é excelente e a denúncia da falta de estudo da geografia, totalmente oportuna. Ler Mackinder não significa transpor suas idéias ao “império americano”; não deve haver tabus quando o assunto é o conhecimento. Lê-lo tampouco significa concordar com a superioridade da raça britânica, coisa que ele defende. Mas, bom polemista que é, Kaplan usa um artifício recorrente. Ele vai um pouquinho além do que realmente deve pensar, passa dos limites do politicamente correto, causando estardalhaço e, claro, publicidade.