
Pela primeira vez em 10 dias, o golpe em Honduras não “abriu” o caderno de internacional de um dos três principais jornais do Brasil. Sinal de que a crise, convertida em um estranho impasse entre pressões dentro e fora de Honduras, começa a desinteressar. Antes que a questão esfrie, vale a pena comentar não só a ascensão e queda do presidente Manuel Zelaya, mas também a forma como o rincão centro-americano ecoou e ainda ecoa as forças em disputa nas Américas.
Houve uma merecida condenação ao golpe por países que viram no episódio um precedente inaceitável. O Brasil teve essa reação. Reviver as cenas de militares caçando presidentes – e, no caso hondurenho, deportando-o de pijama e o obrigando a assinar uma carta de renúncia – é inadmissível. Sob o guarda-chuva da cláusula democrática, a OEA suspendeu Tegucigalpa, mensagem direta às casernas e aos demais redutos onde a conspiração é sedutora de que ruptura da ordem constitucional daqui para frente será sinônimo de isolamento internacional.
Mas para o bloco dito “bolivariano”, a coisa é um pouco distinta. Não é exagero dizer que, com a deposição de Zelaya, pela primeira vez desde o golpe contra o próprio Hugo Chávez, em 2002, um governo de agenda “chavista” corre sério risco de não vingar. Aliás, pelos acontecimentos dos últimos dias, é muito alta a chance de o impasse perdurar até as eleições de novembro, na qual simplesmente não há nenhum candidato alinhado a Chávez. E por isso Honduras (convenhamos, um paiséco exportador de banana e café) adquiriu uma importância inestimável a Caracas.
A trajetória de Zelaya lembra o filme Bananas, de Woody Allen. Nele, o judeu clarinetista nova-iorquino e paranóico se apaixona pela vizinha, uma loira de olhos verdes brilhantes que, por acaso, era fervorosa comunista. Um dia ela toca a campainha. Allen espia pelo olho mágico e, com o coração na boca, atende à porta. A donzela traz em mãos uma lista para recrutar guerrilheiros, que deveriam fazer a revolução socialista em um país do qual Allen nunca ouviu falar, e pede apoio pela “causa”. Claro que ele, na lata, assina, esperando convidá-la para jantar. O nova-iorquino vai parar num hilário papel de comandante socialista caribenho.
Fazendeiro e rico, o presidente hondurenho deposto foi eleito pelo Partido Liberal (PL), de direita. Mas, no meio do mandato, viu no bloco chavista os olhos verdes que Allen viu em sua vizinha. A atração se justificaria pelo pragmatismo: os EUA de Bush estavam em duas guerras e não davam a mínima para América Central, enquanto Chávez surfava no barril de petróleo a US$ 130. Em pouco tempo, Zelaya fechou com a Petrocaribe e entrou na Alba, em uma compreensível busca por capitais externos.
Mas o pragmatismo da política externa parou por aí. O direitista se “converteu” de fato ao projeto bolivariano e decidiu implementar em Hondruas a agenda advogada pelos supostos herdeiros do libertador. Assim como fez Chávez na Venezuela, Evo na Bolívia e Correa no Equador, o primeiro passo foi tentar uma consulta popular (note-se: não um referendo ou plebiscito, como muitos acusam Zelaya) sobre uma eventual constituinte. Por trás da manobra, estava a idéia “chavista” de refundar o Estado por meio do voto, emplacando assim um projeto de nação radical com a oposição alijada, mas sem romper formalmente com a ordem. Zelaya, entretanto, era um bolivariano improvável, de ocasião, que não tinha apoio popular real – cenário totalmente diferente do que ocorreu com Chávez, Correa e Evo.
Com a pressão, o sistema não agüentou. Contra o presidente, alinharam-se o Congresso, o Judiciário, as Forças Armadas e a Igreja. As manifestações de rua pró-Zelaya até agora não embalaram os hondurenhos, segundo os relatos de Tegucigalpa, e duas forças se opõe: uma externa, que aponta cada vez mais para um bloqueio total a Honduras, congelando até investimentos do BID e dos EUA; outra interna, que recusa a volta de Zelaya e se prepara para arrastar o país até novembro, quando as eleições serão usadas como pretexto para dar nova legitimidade ao governo.
Quanto à mobilização internacional, pode-se afirmar que há dois repúdios ao golpe. O primeiro, por seu caráter antidemocrático e pelo já falado precedente que ele envolve. EUA, Brasil, México, Chile e outros atores regionais seguem esta lógica. Os “chavistas”, porém, repudiam – e temem – o sucesso do golpe porque ele representaria o primeiro fracasso total de um “bolivariano”. São duas lógicas que por vezes se encontram, como no voto de consenso da OEA que suspendeu Honduras. Mas são duas lógicas concorrentes. Uma preza a institucionalidade do jogo. A outra é marcada pelos líderes, individuais e quase missionários, que devem colocar o Estado no caminho da verdade.
Boa reportagem. Apenas um detalhe: nao sei se são lógicas tão contrárias assim, já que o bolivarianismo é ainda mais democrático. Medo de reforma institucional é covardia burguesa e nao valor democrático.
[...] época, o mundoentrelinhas havia comentado o golpe contra [...]